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quarta-feira, 12 de março de 2008

6 - Customizando o puf

Lá se vão cinco anos desde que conheci o Puf Roxo e muita coisa mudou no mundo e na terra, que anda por demais aquecida e derretendo os nosso cérebros e nos obrigando a andar quase nus.
Há de convir que o modelito Puf Roxo é para inverno, e como a Neusa não está querendo transformar seu corpinho de Vênus-gueixa em molho shoyo, resolveu customizar o seu Puf Roxo.

Agora quando vou tomar café não vejo mais um alcochoado ambulante, mas uma cama-sexy-redonda-com-espelho-no-teto de salto quinze. O salto é para tornear as suas batatinhas das pernas morenas do sol do cepe.

Ela não contou o seu segredo, mas fazendo uma pesquisa em sites de moda e observando a mudança gradual da nossa colega, acho que encontrei a receita, que repasso a quem possa interessar (principalmente eu)

Receita da costumização:

- Espete o Puf para esvaziar tudo;
- Arranque as mangas;
- Uma bela tesourada no decote da frente e de trás até onde Deus permita;
- Sutiãs aos lixo!
- Joelhos, costas, ombros e colo sempre à vista;
- Ajuste o Puf o máximo que puder ao corpinho;
- Uma maquiagem definitiva;
- Um marido e/ou amante (sei lá, né) que compareça.

E enfim, a cama-sexy-redonda-com-espelho-no-teto, que treme, revira os olhos e suspira em meio aos slides, projetos e monitores está pronta para falar:

- MORRA DE INVEJA!.


07.03.2007

11- Extraindo um cérebro

A minha saga de problemas dentários vem de longe, desde criança freqüento dentistas.Lá pelos idos dos meus lindos 15 anos, obturei umas 20 cáries, duas em ouro! Anos passaram, canais e coroas foram executadas, placa de bruxismo, limpezas, extração do sizo, tudo ou quase tudo foi feito em minhas arcadas.
Mas agora no alto dos meus quarenta e seis anos uma coroa caiu, provisoriamente deu para colar de novo, mas segundo o diagnóstico do meu irmão, dentista, seria necessário fazer um implante, então formou-se um pool de profissionais dentários para discutir o meu caso. Primeiro uma radiografia. Verificaram que não tenho osso para um implante, uma ponte? Também não, pois aquele dente que poderia segurar o falso é pequeno demais. Por que meus dentes haveriam de colaborar e facilitar a nossa vida? Não, tinha que complicar.
Aí pediram uma documentação, sem imaginar o que era, lá fui eu ao laboratório de radiografia. Passei a manhã tirando raio-X, fotografia de todos os anglos do meu rosto, boca aberta, boca fechada, de frente, de lado, boca arreganhada, molde e sei lá mais o quê.
O resultado foi encaminhado diretamente ao pool, que discutiram, analisaram e chegaram a magnífica conclusão: arranca o que sobrou do dente e coloca um aparelho.
Como não tenho medo de dentista, recebi a notícia numa boa. Arranca e coloca aparelho. Tudo parecia que seria uma cirurgia simples: anestesia, um corte na gengiva, o buticão, balançar o dente, afrouxar a raiz, um puxão e pronto, extrairia o dente, ou melhor, o pedaço que sobrou.
Cheguei na hora marcada, às 13:30 horas de uma quarta-feira. Sentei na cadeira, o dentista abaixou o encosto, de modo que fiquei deitada olhando ora o teto, ora as janelas. Uma sala clara e bem iluminada pelas imensas janelas, que mesmo deitada, podia ver o sol brilhar à minha esquerda num mês de julho atípico, fazia calor mas lá dentro o ar era fresco. Eu, paramentada de babador e guardanapo na mão, ele, de luvas cirúrgicas, óculos, preparando os instrumentos na bandeja; verifica a seringa da anestesia, mas percebo que são vários tubinhos, respirei fundo e pensei: vamos lá, coragem é só um dente, tudo acabará logo.
Uma picada ali, outra aqui, mais uma, outra no céu da boca, que dói pra burro. Fecho os olhos e tento pensar em outra coisa e idealizo umas férias em Cancun, que se esvai na primeira tentativa do dentista.
Sinto empurrar o dente para cima e para baixo, pro lado e uma lágrima de dor escorre.
- O quê que é? Vai chorar agora?
- Não, não, pode continuar, não é nada....
Mais um pico de anestesia e sinto a mandíbula indo para a esquerda e o maxilar para a direita, minhas atms reclamam, fico em silêncio, não podia levar mais uma bronca.
- Merda, não podia arrumar um dente mais fácil de tirar?
Não ouso responder, afinal de boca escancarada só podia rezar e rezei, rezei para todos os santos, fiz promessas a São Longuinho, à Nossa Senhora de Aparecida e nada.
O dentista fica de pé e muda de posição, com um instrumento que penso ser, uma chave de fenda, empurra o dente e sinto a costura do encosto da cadeira penetrar em meu cérebro.
- Caracoles! Não vai sair? - reclama o dentista
As horas passam, mais anestesia, sinto o sol queimar as minhas pernas, já devia ser três da tarde e a luta continua, meu irmão. Ele forçando o maldito dente, o maxilar quase caindo, a cabeça prensada na cadeira, tufos de gazes, anestesia, buticão, chave de fenda, chave inglesa, suas mão esmagando as minhas bochechas e? e nada, não queria sair.
Escuto o barulho do famoso motorzinho de dentista.
- Tá partindo para ignorância, pensei e rezei, é claro.

Lembro da dor do parto da minha filha. Dizem que é a pior dor que se pode sentir, mas pelo menos podemos gritar e xingar quem nos deixou naquela situação, inclusive toda a equipe médica que nos assiste, mas num consultório é só você de boca aberta sem poder falar nada e o dentista equipado de todos instrumentos de tortura.
O sol enfraquece, ele xinga mais um pouco, solto um suspiro profundo de cansaço, era uma luta quase vencida por um mísero pedaço de dente. Suplico que martele, mas ele responde que não pode fazer isto.
O crepúsculo, que não era dos deuses, tinge o céu de vermelho. E a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar... já dizia o Raulzito, anuncia o fim da luta às cinco e meia, hora de Brasília:
- Até que enfim! Ruge o dentista. Está aqui o maldito!
Olho para aquele pedaço infame de osso, tão pequeno sem saber se sentia alegria, ódio ou a felicidade de um parto, mas ele era como um filho indesejado, não quis saber dele, não quis guardá-lo como lembrança.
Senti então, os pontos sendo dados rapidamente, nem pedi outra anestesia, pois queria que aquela tortura acabasse logo, assim como ele. Cirurgia finda, voltou a cadeira em posição normal para que o sangue voltasse a circular em meu corpo e eu não desabasse ao levantar.
Dispensada corri para o elevador onde haviam dois homens e uma mulher. Me sentido um extra-terrestre com o rosto inchado, me justifiquei daquela situação:
- Está na cara que estou saindo do dentista, né?
A mulher deu um sorriso...
- E olha que é meu irmão!
- Nooossaaa, imagine se não fosse?
- Pois é, acho que vingou todos seus traumas de infância. É que eu tirei o seu posto de filho caçula quando nasci.
- Deve ser....
Térreo. Saí correndo para o carro e um choro compulsivo e descontrolado veio à tona. Dirigi de volta para casa. Meus pais vieram me receber à porta, pensei que fosse uma calorosa recepção, afinal nunca fazem isto, mas devido o adiantado da hora, quase 7 da noite, meu pai, meu querido e bom velho pai, me pergunta:
- você trouxe o jantar e o pão de amanhã?
Minha mãe equilibrando-se na bengala, só coração de mãe podia responder isso:
- Sampaio..... vá à M....
Agora, estou com aparelho nos dentes, mas isto... será uma outra história...

Letícia 29/07/2006

13 - O dia que a Let’s pirou ou piorou

Era uma vez uma Let’s tranqüila que trabalhava no seu mundinho de processamento de uma famosa biblioteca. Classificava os livros que queria, do jeito que queria. Inventava mais trabalho para ela e também para outros setores.
E assim caminhou a sua humanidade por cinco aprazíveis anos.
Mas eis que um dia uma superbibliotecária veio convidá-la para mudar de setor, (para substituir outra super), sabe aquele Puf de rodinhas? É, foi ela quem a convidou! propôs novos trabalhos, novos desafios, uma nova era na sua vida-besta. Os olhinhos da Let’s brilharam! E ela pensou, pensou, pensou: era um novo desafio, vou ou não vou, eis a questão!
Ela foi.
No começo tudo parecia um paraíso, a Neusa foi ensinando, a Rosilene dando as dicas, a Ira rindo.... No início, o rítmo de trabalho era nem lento e nem super-rápido, era quase rápido, porém a Let’s foi agüentando o tranco e achando que a vida era aquela beleza....
Mas como nem tudo são flores e nem paraíso, o povo do setor de projetos começou a mostrar a sua cara. Começaram pisar fundo no acelerador e a rodinha zuuummm ia pra lá e pra cá e a Let’s foi entrando no furacão, vulgo Puf roxo, rodando no centro do tornado, em meio a tempestades de usuários, projetos, cds, vídeos, mapas e tudo o que havia ali. Os cabelos começaram a arrepiar.
E a Neusa com aquele jeitinho manso de falarbaixinhorapidinhoquemonitornão
podeveremailvocênãopodenavegartemquetrabalhartemquechegarnahoratemquesercompetentetemquefazerexposiçãoindexarprojetovideocdmapafotografiaosaltofazendotoctoctocmontacdhomepage-respira-tomaáguacafécháfazxixivoltapramesanãorespiraatendedesaprende
stresspira - respirafundo- e BUM!
A Let’s pifou!
A Rosilene correu para acudir, abanava, trouxe um remedinho:
- Ira ajuda aqui...
Ira rindo: - Ajuda aqui, hehehe.
- Levanta um pouco a cabeça.
- Levanta a cabeça, hehehe, a Valéria já fez isso comigo....
Não pode continuar, pois a chegada das três Marias causou um alvoroço, a Mony-Maria foi logo gritando:
- Vocês estão loucas?! Não mexe no corpo, ninguém mexe até o bombeiro chegar.
Edla-Maria dá um palpite:
- Deve ser a escoliose ou a lordose mas parece mais esclerose, isso aconteceu com uma amiga minha.
- O quê? O que você disse?
A Edla vai abrir a boca para explicar o acontecido para Emily-Maria, mas é interrompida:
- Peraí, deixar eu aumentar o volume do meu aparelho.
- EMILY! A LET´S PIFOU.
- Quê? Peraí, ainda não sintonizei direito, quem fez isso com ela?
A Mony bufa, a Edla desiste de explicar e vai para a copa preparar um chazinho rosa, neste momento a Satiko entra na copa e pergunta:
- Huuummm, o que você está fazendo.
- Um chá rosa pra Let´s que pifou.
- Chá? Huuummm. Olha a caixinha, cheira, põe o óculos e vê o preço!
Cruzes você pagou tudo isso? Lá em Atibaia tem chá rosa, verde, amarelo, azul, todas as cores, bem baratinho...
E a Let´s continua lá, estatelada no chão esperando socorro. Os outros colegas de trabalho estão voltando do almoço e aos poucos vão se aglomerando em volta daquele corpo largado e arrepiado no chão amarelo-frio.
A Lisely tem um choque ao adentrar pela porta de vidro e deparar-se com a cena inusitada, solta sua voz de menina-direita-de-colegial-de-alguma-Nossa Senhora:
- Coitada, como vocês a deixam assim? Agacha e arruma a roupa, escova os cabelos arrepiados
- Pronto agora sim, pode chamar o bombeiro.
A Célia pega um almofadão estampado, não o Puf é claro, acende um incenso, senta ao lado do corpo e começa um ritual reikeano energizante.
- Deus manda fazer sexo só para procriar, mas acho que o caso dela é urgente pra relaxar, aconselha a conselheira irmã Araci.
- Que sexo nada! Se ela tivesse três gatos, quatro cachorrinhos, cinco peixes, um papagaio, umas tartarugas e fizesse piquete não estava aí estatelada. Resmungou a Regina.
Da janela a Rita grita: Ô Let´s vem fumar um cigarrinho aqui na janela, que esse piti passa!
Mas o Rodison não se conforma:
- Ah, se fosse comigo... eu nem deixava isso acontecer, porque as coisas não são assim, tem muita coisa fora de lugar na minha mesa, na minha casa, na minha cabeça, mas sabe, sei lá, isso é uma absurdo!
A Eliana ao passar pelo Projeto em direção à copa, vê aquele tumulto e pergunta: o que acontece? A Rosilene tenta explicar, a Ira ri, todos falam ao mesmo tempo, mas a Mony põe um ponto final falando mais alto e resume a história dizendo que o bombeiro logo chegará.
- Bom já que está tudo resolvido, je suis desolée, e como aqui não é lugar para tumulto, dispersem, deixem as duas resolverem o problema. Elas que se entendam.
E dirige-se para a copa acompanhada da Vila, que também arrisca mais um palpite para a situação:
- Acho que ela precisa comprar um produto da Avon ou da Natura, pode ser também um calcinha. Qualquer coisa, contanto que compre.
A Dina não viu nada porque ainda não chegou, a Rejane não se interessa pelo tumulto porque já sobrevive num, oito horas por dia.
Mas eis que chega a causadora do piti da Let´s, a chefe supersônica-atômica-Neusa. Entra calmamente na sala, guarda a bolsa, engata a primeira,a segunda pula pra quinta e atendeumalunofalacomaRosileneemprestaumCDescaneiaumafotoolhaaquilonochão e cai na gargalhada:
- Coitada! A Let´s pifou e o trabalho nem começou!
Aquele corpo estatelado, arrepiado, estendido no chão, que pensava em levantar-se, ao escutar as palavras sábias do conhecimento milenar japonês, achou melhor não arriscar mexer nem os cílios, era mais prudente esperar pelo o bombeiro.
Quem sabe ele a tirava daquela enrascada e valesse a pena a troca.
Mas ainda falta um personagem!
Prof. Katinsky chega beijando todo mundo e dando as alfinetadas;
- Ah, ha! Ninguém está trabalhando, tá todo mundo aqui conversando.
Mas antes que alguém lhe dê uma resposta ele emenda:
- Tem café? Tem bolo?
Alguém responde:
- Tem professor, o bombeiro chegou, a Let’s melhorou e vamos festejar.


Letícia 30/8/2005

15 - Super Vila contra o malvado Mario Bross

Era uma vez a Vila (e o Betinho também). Não se pode falar de um sem falar do outro.
Vila-e-Betinho, Betinho-e-Vila, dois em um, um em dois, vice-versa ou versa-vice, dá no mesmo. Mãe e filho, filho e mãe. Tão silencioso que às vezes, nem percebemos que os dois estão na sala. Por acaso, você já escutou o Betinho falando bom dia? Ou mesmo a voz dele? Eu também não.
Foi numa dessas manhãs frias de primavera-inverno-verão paulistano, que escutamos um GLUF, POF! Um barulho de alguma coisa engolindo alguma outra coisa, mas não demos bola, e os micros travaram, até aqui, tudo normal.
Eu, impaciente, apertei o botão e pof, desliguei e religuei o micro na marra, Mony passou um anti-vírus, Emily afoita só perguntava:
- Gente! O que estava acontecendo? Olha aí o meu micro travou de novo!
O Rodison na sua baianice, foi dar uma voltinha, Edla só falava: geeenteee, maaais ooo queeee eestáá acoonteceeendooo??? E foi tomar um chazinho vermelinho
A Rejane deu um grito! Vila! Ô Vila! Cadê a Vila? E andando depressinha no seu passo apertadinho correu toda a biblioteca a procura da Vila e nada.
Foi aí que todos deram por falta da Vila e do Betinho ou Betinho e Vila? Tanto faz a ordem, pois não altera o produto.
A Vânia, que estava passando pela sala, parou, pôs as mãos nos bolsos da calça e falou na maior tranqüilidade. Vocês já perceberam que toda bibliotecária daqui é tranqüila?
- A Vila está dentro do micro! Olha ela lá! Está dando tiro no super Mario para salvar o Betinho.
Todos correram para frente da tela do super-avião-micro da Mony e foi um auê:
- Olha ela lá!
- Sai daí, Vila!
E lá ia a Vila pulando foguinhos, atirando em monstrinhos, ganhando e perdendo vidas, saltando pontes, correndo de espadas, facas e mais monstros.
(Um parêntese: para dar mais emoção, vocês leitores, imaginem em suas cabeças ou ouvidos aquela musiquinha chata de todo joguinho: tchun, tchun, tchun. Os mais velhos, que não conhecem essas musiquinhas lembrem-se da música do Canal 100, parará pá pá pá, pá, parará pá pá pá pá... que tá bom demais!. Fecha parênteses.)
Aí começamos a torcer pela Vila:
- Sobe! Desce! Não, não, mais para a direita, agora vira, para a esquerda! Esquerda, nããooo!
- Xiii, perdeu vida...
- Vai de novo, olha o monstro atrás!
Mas tínhamos que abreviar esta aventura, ajudá-la a salvar o Betinho e terminar esta estória logo! Mas como faríamos? Ninguém ali era bom nesses malditos jogos e corríamos o risco de matar a Vila antes do tempo.
Tínhamos que matar todos os monstrinhos de uma vez só. A Vila, pra lá de cansada, veio até a tela do micro, botou o carão na super tela do avião-micro e gritou:
- Só há uma maneira de vencer a todos, coloquem uma música mais insuportável que esta que está tocando.
Música? Mas qual? A Emily sugeriu Bethoveen, o Rodison a Betânia, a Lisely uma valsa, a Dina um pagode e assim ficamos discutindo qual seria a melhor ou pior música que a de um jogo de computador. Mas a Ira, santa Ira! Apareceu com o Cd É o Tchan. (disse que era da neta....huumm, sei não...) Foi uma gritaria e entusiasmo geral, salva de palmas, batidinhas nas costas da Ira, etc e tal...
Mony, mais que depressa colocou o Cd no seu super-avião-micro.
Nem monstrinho agüenta!
“Segura o tchan, amarra o tchan e tchan, tchan, tchan....”
Todos os monstros estatelaram-se no chão, as pontes pararam de se mexer, os jacarés serviram de pedras para saltar nos rios e a Vila pode chegar ao fim e salvar o Betinho das amarras do Super Mario Bross!
Os dois saíram de lá de dentro do micro, meio sujos e cansados, porém felizes.
(Acho que o Betinho levou uma bronca,mãe é mãe, né?)
E Ueba!!! Isso merece um bolinho com café e chazinho vermelinho.

Leticia 24/09/2002

16 -Chá das cinco

Estamos em algum lugar do passado misturado com o futuro.
Eram 5 horas da tarde, uma linda mesa havia sido posta para servir o chá das 5. Sobre a toalha de linho branco, estavam as pratarias e o jogo de louças inglesas para servir o chá de jasmim, docinhos, bolinhos e camafeus. A futura diretora da biblioteca estava recebendo alguns ilustres convidados em sua casa, como por exemplo, um tal de Artigas, o Ramos de Azevedo, Raminho para os amigos, uma moça Lina, o Oscar e o jovem Othake.
Entre uma mordida e outra, um gole e outro, a nossa anfitriã soltou o verbo:
- Meu caro Artigas, já que o senhor ainda está desenhando a futura sede da Faculdade de Arquitetura, gostaria de dar umas opiniões, afinal em 2002, estarei como diretora da biblioteca e precisamos discutir alguns pontos....
Mas ela foi interrompida pelo amigo comunista, Oscar:
- Ao meu ver, está faltando um pouco de irracionalidade e imaginação, por exemplo, umas curvas femininas, uns peitinhos, umas ancas...
- Bah! Replicou Raminho. E o anfiteatro? O que você pretende com aquilo? Mais parece um porão!
O senhor Artigas não se conteve:
- E o seu teatro? da platéia não se enxerga nada! Quer coisa pior...
- Para mim está faltando uma cor, que tal um roxo ou lilás? E o nome da Faculdade em neón! Ficaria bárbaro - sugeriu o japonezinho Othake.
- Peraí gente, reclamou a bibliotecária, também loira e possivelmente econômica, estamos aqui para discutir coisas práticas e não as curvas e cores. E voltando-se para o autor do projeto: quero te avisar, pense bem como farás o banheiro para funcionário, pois sei o muquifo que será, um horror!
- Minha cara futura diretora, antes de mais nada, podes me passar os petit-fours? E continuou: agradeço os palpites, mas a minha intenção neste prédio é que qualquer tipo de manifestação seja ouvida em todos os cantos, qualquer som, qualquer palavra...
- Sim! A amplidão da liberdade! interrompeu Oscarzinho.
- Um vão mais que livre. - pensou a senhora Lina.
- Quero lembrar também que o prédio não oferecerá nenhum conforto térmico, aliás será uma enorme geladeira e nos obrigará a usar luvas de dedos de fora para trabalhar. A gente fica parecendo mendigo de filme europeu, outro horror!
Os convidados arregalaram os olhos! E Ela continuou:
- E tem mais, acho bom o senhor aumentar a área da biblioteca, afinal todos os projetos que vocês farão eu terei que dar conta da preservação, principalmente o seu, meu querido amigo Ramos.
- Mas o projeto já está pronto! E foi aprovado em todas as instâncias, não posso mudar mais nada.
- Então mude o sol de lugar, sugeriu Othake com um riso irônico.
Acontece que todas aquelas opiniões já estavam deixando o Senhor Artigas nervoso, ele pediu licença para ir ao banheiro e durante este período os outros convidados continuaram a confabular, criticar e a fazer tititi. Ao retornar o Artigas pediu silencio:
- Meus caros amigos, enquanto estive fazendo as minhas necessidades, cheguei a seguinte conclusão: vou inverter o prédio, assim o sol incidirá na biblioteca, pensarei num banheiro decente, na fachada colocarei uma escultura em néon cheia de curvas. Então até logo que tenho muito a fazer.


Se este encontro memorável aconteceu ninguém sabe.
Se aconteceu, o arquiteto não acatou nenhuma sugestão.
Se não aconteceu, teria sido bom se tivesse acontecido. Deu pra entender?

Letícia 1/10/2002

18 - Sem Norte nem Sul (Katinsky)

Naquele dia ele não chegou com pressa. Deu bom dia, mas não deu o beijo e foi logo perguntando para a Regina:
- A Eliana está aí?
- Deve estar na sala dela.

Ele entrou na biblioteca e foi em direção a sala da Eliana, mas para chegar lá, tem que passar por várias pessoas. Disse apenas bom dia, não beijou ninguém e perguntou:
- Cadê a Dina?
- Deve estar na mesa dela, professor.

Fez meia volta e quando estava saindo da sala, encontrou a Vânia e perguntou:
- A Lisely já chegou?
- Já e deve estar na sala dela..

Neste momento a Eliana chegou:

- Bom dia, professor. A Regina me disse que o senhor estava me procurando e...
- Eu? Não.
- Ele está procurando a Dina, disse a Rejane.
- A Lisely, falou a Vânia.
- Quem? Eu? Procurando quem? Onde?

É, parecia que havia algo de estranho no ar. Naquela manhã o Katinsky não havia beijado ninguém e não doou nenhum xerox para Emily tombar.
Todas entreolharam-se com uma interrogação no rosto, perguntando uma a outra o que se passava. Mas a Rejane esperta notou que estava faltando alguma coisa no Katinsky

- Ô professor, acho que está faltando alguma coisa no senhor....
- O que? Faltando o que? Eu estou aqui, inteiro e...
- Huumm, deixe me ver...
- Não, não está faltando nada em mim.
- Já sei! A bússola, cadê a sua bússola professor?

Só então descobrimos o que estava faltando nele e porque usa a bússola dependurada no pescoço: sem ela ele fica totalmente desorientado.
Nesse momento a Regina veio ao nosso encontro trazendo a bússola e dizendo que alguém havia entregue no balcão de empréstimo.
Assim que a colocou no pescoço, tudo voltou ao normal: saiu distribuindo beijinhos e sacou um folheto do seu bolso, fez mais uma doação, pediu para a Rejane scanear alguma coisa, solicitou um xerox para a Dina e foi discutir a reforma da Fau Maranhão com a Eliana
.
Se demorasse mais um pouco para a bússola aparecer, era bem possível ele inventar um puf roxo de rodinhas, como uma nova cadeira do Katinsky.

Leticia 5/10/2002

19 -Peça em 14 Cenas indecorosas

Cena 1:
Dia de pagamento. Todos felizes. São 14:30 h, todos já almoçaram e passaram no banco, estão com dinheiro vivo. Agora estão trabalhando e conversando.

Cena 2:
Rosilene passa nas mesas com papel e caneta na mão. Vai parando em cada mesa e pedindo dinheiro:
- Oi, tudo bênhe? São R$ 1,50 de cada aniversariante, o total é R$ 6,00, tá? – fala com a maior naturalidade, sem vergonha alguma de pedir dinheiro aos seus colegas.
Uns pegam a carteira, outros abrem a gaveta, um ou dois levantam-se para buscar a bolsa no banheiro. Àqueles que dizem que não tem trôco, ela responde:
- Tem problema nãão, eu tenho troco...
Ou:
- Depois eu volto com o trôco, tá? Mas tem que pagar agora, já.
Cena 3:
Ela na mesa contando o dinheiro e guardando num envelope e depois na gaveta.

Cena 4:
A Rosilene tomando remédinho natural para gastrite.

Cena 5:
A Rosilene cobrando um CD de um usuário.


Cena 6:
Ela tomando remédinho natural para dor nas costas

Cena 7:
Rosilene fazendo um lanchinho: comendo uma frutinha.

Cena 8
Tomando um remedinho natural para tendinite.

Cena 9:
Carregando projetos prá lá e prá cá.

Cena 10:
Tomando um remedinho natural....

Cena 11:
Conversando com a chefe com uma expressão de confessionário.
A chefe escuta o novo “probleminha de saúde” com uma paciência oriental.

Cena 12:
Tomando um remedinho natural

Cena 13
Encomendando por telefone, um vidrinho de remedinho natural que vai acabar e ela não vive sem ele....

Cena 14
Rosilene voltando do banheiro e falando:
- Até manhã, témanhã, témanhã.... tchau, tchau, tchau....E sai correndo para pegar carona.....

Leticia 24/09/2002

21 - MONY! Me proteja, amém

- Eu já disse, tô fora!
- Tá fora nada, todos já ganharam as suas crônicas e aventuras, porque você a rainha hilária- Clinton ficaria de fora? Nananina não! Sei que corro um sério risco de vida, mas sou ariana e adoro mexer com fogo, principalmente se fôr de uma sargitária.
É ruim, hein? Imagine se não vou contar o que vi e vivi ao seu lado?
Certo dia de sol, chuva, calor e frio paulistano, cheguei à biblioteca, mais especificamente à minha mesa e vi a Rejane confabulando com a sua querida caveira:
- To be or not to be bibliotecária? That’s the question. Meu querido pepê, (apelido do seu Santo Expedito) preciso de grana!
Assisti àquela cena mas não dei um pio, me finji de morta, que não vi e nem escutei nada, afinal, para se falar com a Rejane, antes precisamos saber qual é a fase da lua em que se encontra, que são as seguintes:
Lua cheia: quando está de saco cheio de todo mundo, não olha pra sua cara e nem ao menos lhe diz bom dia.
Lua minguante: quando ela te diz oi, pela manhã.
Lua crescente: quando dá bom dia e durante o dia fala apenas o necessário.
Lua nova: quando dá bom dia, fala um pouco mais, te convida para um café e pode até fazer uma piada com você.
Neste dia percebi logo que era a fase da lua cheia:
Dei-lhe um bom dia e ela respondeu hum, observem que é apenas um “hum” e não “hum, hum”, ou seja dois “huns” . Em seguida arrumou a mesa e no seu passo apressadinho e apertadinho se mandou para o acervo.
Mas eu precisava falar com ela e fiquei matutando como chegar sem levar uma chamuscada. Chamo-a de Re? Reja? Ou Rejane? É melhor o nome certo... bom até aqui tudo bem, e depois? Como falar o que tenho a dizer? Ai meu Deus! Ô Santo Expedito me ajude! O dia foi passando e eu ficando com aquilo na garganta.
À tarde, convidou a Célia para tomar um café, chamou o Rodison de Rodi, a Mônica de Monyy, Edla de Edlaaa, Vila de Vilaaa, assim com a última sílaba acentuada, percebi então, que já estava mudando de fase, indo para a lua nova. Suspirei fundo e tomei coragem, imprimi esta crônica e entreguei a ela.
Agora só me resta rezar a todos os santos para não sair daqui, chamuscada, triturada, massacrada.
- Monyyyyy!!! Me proteja!


Letícia 7/10/2002

22 - Cuidado: ao pó retornarás!

Mônica Arruda Nascimento. Nome forte, de peso e ela faz jus ao que lhe pertence.
Uma dica: não pise no calo dela, pois se um dia você pensou em ter um, ela já cortou o seu dedo e jogou pela janela.
Monyfau para os íntimos, Mony para os mais ainda. Assessora para assuntos gerais, específicos, profissionais e compras. Se você não sabe qualquer coisa, pergunte a ela e terás a resposta na hora.
Isso aconteceu no mês de setembro, é setembro, o mês que quase foi descartado, mas também é o mês do inferno astral da Monyfau (ainda não sou tão íntima assim).
Lá estava ela pilotando a supertela do seu micro que mais parece um avião. A Edla contando as últimas viagens, a Emily pedindo socorro porque o micro pifou, a Let’s enchendo o saco com a produção científica, a Rejane escutando no último volume o seu rock pauleira, o Rodison reclamando da vida, a Vila, bem a Vila pode fazer o que quiser que ninguém escuta, a Dina radiando os últimos acontecimentos. Parecia tudo tranquilo, tudo normal, mas isso é o normal.
Mas a Mony no inferno astral não é normal. Se normalmente ela está com a macaca, imaginem a macaca no inferno! Sai da frente que atrás vem a Monyfau.
Não sei por que cargas d’água um infeliz aluno veio reclamar da produção científica, pode? Reclamar alguma coisa com a Monyfau? Ele estava pedindo para ser massacrado, entortado e reduzido à pó.
E como boa cristã que ela é deve ter pensado na frase: se viemos do pó ao pó retornaremos. Desfiou o rosário, falou, gesticulou, bradou, botou os pingos nos is e o coitado no lugar a que lhe pertencia: a de simples aluno:
- Que vá reclamar para a vovozinha dele! Hora vejam só, se estou aqui para escutar uma coisa dessas. Me poupem!
E agora! Pensamos. Quem vai ter a coragem de sacudir a Mony? Se só ela foi capaz de trazer a Lisely daquele transe! Confabulamos mil hipóteses:
- Que tal um café?
- Não, acho melhor um bolinho...
- Uma água com açúcar.
- Hii, isso não resolve.
Mas desta vez foi a Edla quem nos tirou do sufoco:
- Já sei, peraí, vocês vão ver.
E lá foi a Edla em direção à Mony com toda a calma que Deus lhe deu. Ficamos ali espreitando a sua reação e com receio do que poderia sobrar para nossa loira colega. Mas a Edla sabia o que estava fazendo:
- Mony?.....o que você acha da gente ir naquela loja de sapatos na hora do almoço?
Fez-se um tremendo silêncio. A Mony estava pensando, registrando a pergunta. Ela parou de falar com o coitado do aluno, virou-se para a Edla e respondeu:
- Sabe que é uma boa idéia? Estou mesmo precisando completar a minha coleçãozinha de sapatos. Que legal! Será o número 239, mês que vem completo 240 sapatinhos...
Enquanto ela falava com a Edla, pegamos o garoto pelo cangote e sugerimos que se mandasse imediatamente se não queria retornar ao pó.
E tudo voltou ao normal, a Let’s enchendo o saco, a Rejane escutando um sonzinho, o Rodison reclamando e o resto na copa comendo uma bolachinhas, pães, doces, bolinhos, etc, etc...Ah! e o café da Ira!
A Imelda que se cuide!


Leticia 20/09/02

28 - COMPANHEIRA GATA

Para ela, companheiro é companheiro, companheira é companheira, greve é greve e se for geral, melhor ainda.
Foi numa dessas greves na USP, em que pedíamos 101% de aumento - até aquele momento não entendia o porquê do 1% - que conheci a Regina e se revelou uma grande companheira.
Fazia piquete todos os dias, às 5 h. da manhã já estava na porta da Reitoria e não deixava nem o Reitor entrar. Pequenininha e arisca como uma gata, também pudera, com 10 gatos em sua casa, miando com eles todos os dias, acabou ficam igual e aprendendo todas as artimanhas de um miau bem miado.
Diziam até que ela tinha 7 vidas, conclui que era verdade depois que a vi peitando o Magnífico Reitor e conclamando a todos por um salário decente:
Na portaria ela gritava no megafone:
- Companheiros! A luta continua!!. Você aí parado também é explorado!
Lá pelo centésimo dia de greve, o Reitor chegou e viu aquele barraco na porta do seu gabinete, bufou um bafo de alho na cabeça da Regina e ela miou. Tentou ultrapassá-la e ela eriçou o corpo, arrepiou os pelos feito uma gata pronta para o ataque. Soltou um rugido de leão e ela chiou um miau – chissssiiiiiiii ..... e por pouco não pulou no pescoço para esfolar aquela pele branquinha do patrão.
Nós, companheiros e companheiras continuávamos ali, firme ao seu lado, tremendo e temendo com o que poderia acontecer.
Mas, quando chegou um segurança e a gatinha oriental arisca sentiu o cheiro de cachorro, pensou:
- Epa! Sujou! Tô fora.
Apelando para os seus conhecimentos animalescos e orientais, a nossa companheira gata passou por baixo das pernas do Magnífico, correu, zarpou e num salto malabarístico gatuno e kung-funiano foi parar num galho de uma árvore. Mas sem se intimidar com aquela cachorrada, continuou a gritar:
- Companheiros, a luta continua! Você aí embaixo também é explorado... É 101, ôba! É 101, ôba!
Ficamos de olhos arregalados e perdidos com aquela recuada da nossa gata-samurai-companheira e recuamos também.
Assim o Reitor pode entrar em seu gabinete e lá do alto da sua magnificiência nos concedeu 1% de aumento.
Os 100% que a companheirada pedia, ignorou solenemente.
Foi aí que entendi porque pedíamos 101%, pelo menos, recebemos o último dígito.
Toda forma de greve é valida, companheirada

20/09/2002

29 -HAVIA UMA BARATA

Todos nós sabemos, que as baratas estão invadindo a copa da biblioteca da FAU. Toda manhã tem um montão de baratinhas fazendo festa na pia, na mesa, nos pratos e porque não nas garrafas térmicas?! Cruzes, Ira! Isso é pecado!
E não é que a barata mãe foi parar num lugar inusitado? De repente alguém gritou:
- Tem uma barata na careca do Rodison!
Vocês podem imaginar o tamanho do escândalo: toda aquela mulherada gritando de pavor e fazendo cara de nojo. O coitado do Rodison ficou imóvel, estático, estarrecido. Olhava para cima tentando ver aquele bicho pessonhento que lhe fazia cócegas com as perninhas.
Mas a Vila 2 ou a Vila faxineira que estava passando por ali, não teve dúvidas, sacou a sua vassoura e PAFT! naquela reluzente careca. O nosso amigo estatelou-se no chão, a maldita voou e o furdunço aumentou. Algumas de nós subimos nas cadeiras, outras no armário, eu? Aahhh, fui parar no empréstimo!
- Mata ela, Vila! Argh!
- Ela está debaixo dos carrinhos!
E a Vila Paft, paft, socando a vassoura na maldita e nada de acertar...
- AaaHH!!! Ela está debaixo do armário!
- Hiii, está na minha mesa!
- No meu mouse!
- No armário das obras raras!
Alguém sugeriu: - Joga veneno!
- Veneno nããoo!! Gritou a Lisely indignada.
A perseguição continuou, a Vila 2 com a sua arma na mão e o cigarro na outra, dava vassouradas em tudo, voou lixo, papel, canetas, livros e a barata lá, brincando de esconde-esconde. Parece que quanto mais se grita mais a barata engana a gente.
Mas eis que ela foi parar no vidro da janela.
- É agora ! gritou a Vila, toma desgraçada ! E P A F T !!!!!!
A Vila acertou em cheio a maldita pessonhenta. Uma gosminha escorreu, uma perninha despencou no chão, mas o corpo ficou ali, grudadinha no vidro.
Foi um alívio geral e o furdunço foi de agradecimento pelo ato heróico da nossa faxineira. Ela sorriu meio sem jeito e perguntou: E ele? Como está ele?
- É verdade gente! O Rodison! Cadê ele?
No meio da gritaria, do desespero, do pavor esquecemos do nosso baianinho e lá estava ele estatelado no chão. A Emily quase teve uma síncope:
- Gente! O Rodison não pode morrer, quem vai tombar os livros?
Sacudimos, chamamos, berramos e nada. Aí veio a Célia Zen-Indu e disse:
- Calma gente, vamos dar as mãos e fazer silêncio.
Achamos aquilo meio esquisito, mas faríamos qualquer coisa para salvar o nosso colega. A Célia acendeu um incenso e entoou o Om. Ele despertou tranqüilo e perguntou o que havia acontecido, mas um com sangue de barata respondeu:
- Tinha uma barata na sua careca!
- Aaiiiiiii..........acho que vou desmaiar....
- Nããooo!! Gritamos todas juntas. Levanta e vamos comer o bolo !
Aí a Vila 2 engrossou:
- Mas sem deixar cair farelo no chão!

10/10/2002

30 - A conselheira

Araci, a senhora florida do balcão de empréstimo.
Com as suas mãos finas e brancas adora crochetar lindos barrados em panos de pratos e obviamente, vendê-los.
Ótima confidente e conselheira, escuta a todos e com a sabedoria que a idade lhe proporciona e dá valiosos conselhos! Principalmente se for sobre sexo. São conselhos simples e diretos, mas que apazigua os corações sofridos desta biblioteca.
É sempre na hora do café que ela exerce a arte do aconselhamento
Transcreverei aqui, alguns diálogos que já pesquei de orelhada, enquanto tomo também o meu café. Confesso que alguns também me serviram.

- Araci, não sei mais o que fazer? O meu marido me procura todos os dias. Ele só pensa naquilo, eu não agüento mais! Tem dias que digo que estou com dor de cabeça ou vou dormir mais cedo. Mas aí, no dia seguinte, ele acorda feito furacão. O que faço?

- Minha filha... tem que dar... Este mundo tá cheio de mulher sobrando querendo dar e se você não o satisfizer ele procura outra. Casamento é assim, amizade, companheirismo e sexo.

Outra pessoa pedindo conselhos:

- Ah! Como está difícil arrumar namorado! Se a coisa continuar assim, vou virar freira!
- Que freira que nada! Vai menina, se arruma, sai pra rua, vai passear bastante, vai paquerar. A vida sem sexo não é vida!

Depois foi um rapaz:

- Não sei mais o que fazer para ela olhar para mim! Já fiz de tudo, mandei flores, cartões, me declarei, mas ela não quer saber de mim. Estou sofrendo muito....
- Meu caro amigo, se ela não liga pra você, chute o balde! Desencana, vai procurar outra. Tem tantas meninas por aí solteríssimas e você aí, chorando por causa de uma sirigaita quem nem te dá bola. Arre!

E assim é a Araci, uma viúva alegre, florida, conselheira de sexo e relacionamentos amorosos, leitora voraz da Bíblia e crocheteira.

Podem encomendar um paninho de prato que eu garanto.


Leticia 5/10/2002

31 - O aniversário

Oba! Hoje tem bolo...é o aniversário da Satiko!
Pois é, aquele dia era o aniversário da Satiko e decidimos comemorar oferecendo-lhe um enorme bolo. Como era imenso, media mais ou menos 1,5m de altura e 0,50m de largura, pedimos “emprestada” aquela mesa enorme do setor de projetos e claro, que não houve objeções.
Quando a Satiko chegou, lá pelas 9h., carregando um montão de marmitas e viu toda aquela bagunça e agitação das pessoas arrumando o espaço para a festa, foi logo perguntando:
- O que está acontecendo?
- Estamos arrumando a mesa para o seu bolo de aniversário que vai chegar já já.
- Gentee...mas tudo isso é muito caaarooo...
Ninguém ligou para o que ela disse e continuamos a arrumar a festa: a Lisely costurou as bandeirinhas, a Edla trouxe mais saquinhos do chá vermelinho, a Célia o Buda, a Regina um gato, a Araci um crochê, os monitores os refrigerantes e o resto do povo só a boca para comer.
Nossa! Como pude esquecer: a Ira, aahhh! A Ira? CA-PRI-CHOU trouxe 5 garrafas de café.
A Rosilene animadérrima falava:
- Geentee tá ficando lindooo, mas isso não vai dar certo...
Enfim o bolo chegou, maravilhoso, enorme, pesado, todo prateado que ficamos na dúvida se era um disco voador ou uma super-marmita.
Quando a aniversariante viu aquela enormidade de bolo em cima da mesa não se conteve e boquiaberta disse:
- Gente mas é muito caro, lá em Atibaia eu encontro mais baratinho.
- Mas você não vai pagar nada, isso é presente nosso!
- Aaahhh.. booom, ainda bem. Mas é caro, não?
Decidimos excepcionalmente que o bolo seria cortado ainda pela manhã, afinal não dava para deixar um bolo de 1,5m de altura no setor de projetos até o período da tarde, podia derreter a cobertura e o recheio.
Você deve estar pensando: mas a biblioteca não é uma geladeira? Então porque o bolo derreteria? Já te respondo meu caro leitor, a biblioteca é um gelo no inverno, mas em dias quentes como aquele é de derreter o cérebro e o que dirá kilos de marshmalow!
Então vamos cantar. E em coro as colegas entoaram:
Parabéns pra você, nesta data querida.... E pra Satiko nada! Tudo!! Satiko, Satiko..
E BUM! A tampa do bolo pulou fora! E de lá de dentro saiu o Gil todo suado e derretido do calor, vermelho de vergonha, jogando várias marmitinhas para cima gritando: Viva a Satiko! Viva Satiko! O que seria de mim sem ela em meio a tantas marmitas?
Ela levou as mãos à boca como se levasse um susto, o coração acelerado, os olhos mareados e emocionada com toda aquela demonstração de carinho e companheirismo, ela só conseguia balbuciar algumas palavras:
- Ai gente.. é muito caro...é muito caro... é muito caro...vocês são tudo loucos...é muito caro... Lá em Atibaia é mais barato...isso é muito caro...

E nos fartamos com o recheio do bolo que consistia em:
Arroz, feijão, bife acebolado, couve, farofa, alface, agrião, tomate, abobrinha e cenoura, tudo muito bem temperadinho e baratinho.

Leticia 2/10/2002

32 - Alien, o vigésimo pasageiro

TRUUUM, CRASH, TRASH, PUM PAM PAM.
- Quééé é isso...? gente? Perguntou a Rosilene, com a sobrancelha esquerda erguida em arco.
- Esse barulho vem da sala dos projetos, respondeu a Neusa.
A Rosilene foi até lá. Abriu a porta de-va-ga-ri- nho-o-o-.... e:
- AAAHHHH! Socorro! Tem um bicho enorme lá dentro! E fechou a porta correndinho. Neusa? O que a gente vai fazer?
A Neusa com aquele ar de mãe que ensina o filho a enfrentar a vida:
- A gente, não! Te vira, neguinha. Toma que o filho é teu.
- Mas, mas...
A Michely não acreditando muito e com aquele sorriso nos lábios que nunca sai de lá, disse um dexa que eu ver e entrou. GLUP! O monstro, um alien feito de tubos de projetos, a enguliu.
O Rômulo, na sua santa inocência, estava passando por ali :
- Hahaha, um monstro?aí dentro? Não é possível, hahaha.
Entrou e glup mais um para o estômago do monstrengo entubado
Aí veio o Kleber, tadinho... e a Rosilene esperta o solicitou com um jeitinho:
- Klébeerr, dá pra você entrar lá e matar esse monstro?
- Como assim? Matar como?
- Ah, sei lá. Dá uma direita, um pontapé, vocês homens é que sabem brigar, oras bolas.
E antes que ele respondesse um não, se é que ele é capaz disso, ela abriu a porta e jogou o Kleber lá dentro. Ele deu um grito estarrecedor, mas o bicho não comeu:
- Eu hein! Comer você? Muito magrinho, vai me dar indigestão. Fora daqui.
E o monstro jogou o Kleber de volta, que saiu com as perninhas tremendo e os olhos esbugalhados.
-Uai? Ele não te comeu não, é? Porqueee?? Huum esse monstro está me cheirando arte da Let’s.
- Foi você que me pediu outra estória...
- Mas não assim com um monstro. Eu queria uma coisa mais bucólica ou que nem a da Vila. Poxa vida, né? E fez cara de muxoxo.
Mas a Rosilene não se conformava e solicitou socorro:
- Cadê as bibliotecárias? Cadê a Eliana?
- Está na Maranhão
- A Vânia, a Edla, a Mony, a Dina, a Emily ?
- Ô Rosi... tem ninguém não, a metade abonou e a outra está de portaria, você só tem a Neusa.
- Você como autora é cruel demais. André! Cadê o André?
- Foi buscar o café.
- Então a Gislene..Gisleeneee!!
A Gislene com toda a sua calma se apresentou e disse:
- Vou tentar levar um lero com ele, mas acho que ele quer é você, Rosilene.
E não deu outra, a Gislene foi devorada pelo monstrengo.
Aí chegou o Cheng-noiva, todo de branco e entrou. A Rosilene ficou espreitando a porta, minutos se passaram e nada, nenhum barulho e o Cheng não saía de lá. Quando deu uma hora a nossa personagem principal não se conteve. Bateu na porta e o chamou:
- Cheng, você ainda está aí?
- Estou! Espera um pouquinho.
- Você não acha que está na hora de trabalhar? Já faz uma hora que estás aí dentro conversando e nada, qualé meu? Vamos trabalhar, né?
O Cheng saiu inteiro rindo que só e nos contou que o alien entubado é gente fina e adora a cultura oriental.
- Mas e aí? Esse monstro vai ficar aí para sempre? Eu não entro mais nesta sala, nããoo..
- Você, não sei, mas com certeza o André, a Araci e a Ira estão proibidos de entrar afinal, são eles que pegam o nosso precioso café.
- Qual é a sua Let’s?Você cria este alien entubado, mata todos os monitores, me deixa aqui sozinha para resolver este abacaxi e agora? Como você vai terminar esta estória?
- Calma, Rosilene, isto é ficção e como tudo é mentirinha, vamos fazer de conta que o bicho nunca existiu ou vomitou tudo de volta e estão todos vivos e inteiros. Acho que você não gostou muito desta aventura, mas foi o melhor que pude fazer. FIM!

TRUMM, TRASH, CRASH PAM PAM PUM. É o alien indo embora....


Letícia 8/10/2002

33 - O Puf roxo da FAU

Eu ainda era nova aqui na Fau, fazia mais ou menos duas semanas que estava trabalhando. Era inverno, fazia um frio desgraçado e aqui dentro da biblioteca mais ainda. Fui à copa tomar um café para ver se me esquentava um pouco e ao passar pelo setor de projeto levei um susto!
Vi um puf roxo de salto agulha quinze andando em minha direção... Gelei! , congelei, meu coração disparou.
Em minha cabeça passava mil coisas:
- Será que estou sonhando?
- Um super-homem tenho certeza que não é.
- Aqui na FAU está cheio de artistas... será um novo modelo de design de um puf? Assim, roxo, andando de salto em vez de rodinhas e ainda por cima me diz bom dia!
Tentei sair de fininho fingindo que não era comigo, mas de repente escutei o meu nome.
- Cruzes, o puf sabe o meu nome!
- Bom dia Let’s, tudo bem? – falou o puf
Não tinha como fugir e fui obrigada a me virar em direção aquele novo design, fiquei de frente, a voz não saía. O que eu poderia falar para um puf?
Ufa! O puf não estava mais ali só, a Neusa.
Ainda gaguejando com o susto perguntei para Neusa se ela não tinha visto um puf roxo passando por ali?
Ela, no seu instinto maternal do tamanho de um gigante me respondeu sorrindo:
- Puf? Huummm, acho que você deve estar falando do meu casaco, não?
E o meu coração se sentiu aliviado quando vi um tremendo alcochoado roxo pousado no espaldar da sua cadeira.
Com um sorriso amarelo a convidei para tomar um café.
Isso era só o começo da minha aventura aqui na FAU.


Letícia 19/09/2002

34 - O Tombamento do Rodison

Rodison era um menino pacato, sério, responsável e baiano. Depois da sua infância feliz nas ruas de Salvador resolveu tentar a sorte em São Paulo. Veio de mala, cuia e papagaio. Entrou numa renomada instituição superior para se tornar um grande filósofo, quem sabe um Platão sofístico.
Mas ele precisava arrumar um sustento, uma graninha para manter a sua charmosa barriguinha. Eis que presta um concurso e é selecionado para trabalhar numa biblioteca. Era tudo o que ele queria: trabalhar com livros e mais livros! Um paraíso recheado de mulheres, bibliotecárias com seus lencinhos, fichas e regras. Adão só teve uma mulher e o Rodison estaria cercado de várias!
O seu trabalho era fácil, consistia em tombar os livros, isto é, cadastrar num banco o número de entrada do livro, autor, título etc.
E os anos se passaram.... Rodison lendo Platão, Sófocles, Nietszche, Sartre, Chauí e um montão de livros. Na biblioteca ele ia tombando, tombando, tombando, tombando.
Como Chaplin em tempos modernos, o menino pacato, sério e baiano começou a mudar, não podia ver um livro na sua frente que queria tombar, carimbar, colocar um número!
Certa noite sonhou um sonho maravilhoso!!! A sua biblioteca particular de filósofos criou vida. Platão lhe sussurrou que deveria ser o número um da sua biblioteca, Sófocles escutando, gritou que ele era mais importante e portanto, o primeiro, Chauí chiou e exigiu a ordem alfabética, Nietszche em sua loucura determinou que deveria ser o ano da edição.
O menino baiano se contorcia na cama, resmungava e discutia com seus amigos as várias propostas.
Lá fora a noite chovia a cântaros, trovões e raios! Eis que um deles estourou em sua janela e Rodison despertou suando frio e aflito, correu para a cozinha para saciar a sua sede e ao retornar à sala, olhou bem para os seus livros na estante, sentou numa cadeira em posição de pensador e meditou como um bom filósofo.
- O que será que ele está pensando? Sussurraram os filósofos da sua estante.
De repente Rodison levantou com uma expressão no rosto de alívio, da certeza do que sabia o que iria fazer:
- OK! Vocês venceram! Vou tombá-los!
Foi um furdunço na estante.
- Silêncio! Que vou começar!
E num acesso catártico de Apolo, a catarse dos Deuses, começou a derrubar todos os seus livros no chão e gritava:
- Estou tombando todos vocês, hahaha! Todos ao chão....Tombo um, tombo dois, tombo três.
E assim o nosso menino responsável, sério, pacato e baiano estressou-se na nossa São Paulo.




Letícia 18/09/2002