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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Oração à Emily




Emily que estais no céu
Perdoai-me se um dia te ofendi,
Não foi por mal.
Quando dizia ser sua herdeira
Era porque tínhamos muito em comum:
Surdez, perder o carro no estacionamento,
Fazer processamento e ter parentes no Vale Paraíba.

Ò Emily que estais aí, sentada ao lado direito,
Do criador do céu e da terra,
Do homem e da mulher,
Mandai-me um marido abastado,
Porque aqui embaixo
Andam dizendo que nem disso, sou capaz! Calúnias...
(mas pra falar a verdade, quem diz não vale um tostão de mel coado)

Ò amiga que estais no céu,
Vendo tudo o que se passa por aqui,
Daí-me uma luz!
Ajudai-me com essa tal FAPESP!
Apontai-me o caminho,
Mandai um sinal de como preencher as planilhas.
Onde encontro os números certos.
Fazei com que o Setor Financeiro
Me diga quanto de dinheiro nós temos!

Aproveitando esta oração...
Sussurrai a senha do banco para a sua família.

Amém.

quarta-feira, 12 de março de 2008

2 - Beleza pura

Aaahhhh, essa biblioteca da FAU, quantas inspirações ela não me dá?
Cheguei aqui em 2001, era agosto, fim do inverno, mas ainda frio, muito frio e achei chiquérrimo ela usarem luvas de lã sem dedos, para digitar, não preciso dizer que as copiei rapindinho.
Fui conhecendo os meus (quando existiam) e as minhas colegas de trabalho aos poucos. Sou tímida, você sabe, e fui me interando dos jargões e das manias de cada um, seus tipos, tipinhos e tipões. Tropecei no puf roxo até descobri que era a Neusa, conheci a tia Sumaya através da Emily, por telefone, aprendi tomar chá vermelhinhos com a Edla, fugir da costureira-maluca Lisely, tomar conselhos com Araci, entrar em greve com a Regina, ficar zen com a Célia e a ter cuidado com as insanas mansas, que não são poucas.
E o tempo passou, a biblioteca cresceu, comecei a pegar o jeito, por osmose, e estou descartando feito louca, só não posso me esquecer da Célia, descarta-la jamais! Basta a Reitoria querer mandar embora nossas 69, número tão sugestivo! Mas que na Usp deixam as mulheres a beira de um ataque de nervos.
Contudo, nem tudo são flores e alegrias. De uns anos pra cá a coisa começou a complicar, as emoções se misturam em caracóis e cabelos de medusa, modernamente esticado na chapinha, é claro. Como a maioria aqui é mulher, e sabe cumé ki é, aquela concorrência de quem é mais gostosa, chique e fashion? Aí desembestaram a costumizar as roupas. É um tal de aumentar decotes, fendas das saias até onde Deus permite, sobem e descem barras das saias; compram desesperadamente coleções de colares, até parece que são girafas! É botox dali, tira peito daqui, aspira banha de acolá, trocam receitas de regimes, a Let’s até parece anorexica! A escova progressiva, nem se fala, virou febre: 4 entre as vinte! E a massagem na Matemática? Tem fila!
Creminhos da Avon e Natura para peles oleosas-secas-mista, para cabelos, para estrias, celulites, para qualquer coisa....a Vila fatura!
Mas não pense vocês caros leitores leigos das manhas uspianas, que estas pobres mortais são descontadas no contra-cheque, quando se deitam e deleitam em mesas de operações, não meu bem, tudo respeitando os direitos e deveres celetistas, apresentam um atestadinho do INPS ou descontam os dias daquelas férias vencidas, que ninguém mais se lembra que existiam.
Quiçá no futuro, até teremos nota fiscal eletrônica da Vilani, só para ter o descontinho nos impostos.
Aaaahhh! Como é bom trabalhar aqui. Acho até que, se um morcego resolver dar uma passadinha nesta biblioteca, tem grandes chances de se tornar uma Lady Laura.
Letícia - 29/02/2008

3 - Meia Nove, a melhor idade.

Trabalhar na USP é pior que participar do Campeonato Brasileiro de Futebol, se este é uma caixinha de surpresas, aquele é uma implosão de emoções, que são tantas e capazes de arrepiar os caracóis de nossos cabelinhos com escovas progressivas.
Era uma segunda-feira ensolarada de janeiro, repito, dia do meu rodízio, dia que fico trupicando nos pés e batendo a cabeça de tanto sono. Geralmente sou que nem corno: o último a saber, mas neste dia estava completamente outsider e não percebi o zumzumzum do lado de lá da minha sala.
Aí para saber do acontecido, a Mony teve que me ligar em casa já a noitinha, deixando seus filhos de lado – coitados- berrando pelo jantar! só para contar que as nossas queridas beach-girls e a conselheira para assuntos diversos, vulgo, Emily, Edla e Araci respectivamente, receberam uma carta da Reitoria lembrando-as – e precisava lembrar? – que completarão 70 anos e por conseqüência, serão aposentadas querendo ou não. Foi uma choradeira. Cruzes, eu disse, fudeu.
Foi um tremendo choque, uma falta de ética revoltante, falta de sensibilidade, falta de etceteras, não só porque espalhou para o mundo! que as meninas estão no meia-nove, como também serão praticamente expulsas desta magnífica instituição; como se as nossas super-hiper-mega-blasters girls não tivessem mais utilidades.
Ficamos catatônicos. E agora quem vai nos servir chazinhos vermelhos e rosas? Quem vai nos atualizar com as novidades do mundo fashion? Quem vai comprar revista pensando que é livro? E a tia Sumaya? Como é que fica? Quem vai nos interromper de 5 em 5 minutos: - Ki Ki é bem? Não escutei [aí a gente repete a conversa desde o início, que nem sempre chega ao fim].
E eu, que ficarei sem a minha consultora para dias melhores que estão por vir? Vocês sabem que a Araci é uma ótima conselheira para todos, outros e quaisquer assuntos, principalmente os sexuais. É só mentalizar a coisa que você quer, que pimba! Dá certo. Juro que estou tentando.
A Edla com aquele bronzeado de rica, que pobre não bronzea, tosta; caiu em prantos: quem vai cuidar do meu Kardex? Buááá´. Mas como uma lady já deu a volta por cima. Decidiu esquecer este momento 69 deprê e vai dar um rolê logo ali nos unaites estades.
A Emily, também com o bronzeado ubatubense de gente fina, ficou um pouco mais aérea e não sabia se ia ou se vinha, mas não chorou. E nós não percebemos muita diferença no seu comportamento.
Já a Araci foi mais racional: pôs as cartas na mesa, digo, todos os santinhos que podemos imaginar, fez uma prece pra Deus Nosso Senhor, Nossa Senhora, Santa que desata nós, santo Expedito, São Jorge, Nossa Senhora de Aparecida, ufa! E fez um contato imediato para a filha verificar na reitoria, como é que é esse babado.
Segundo investigações sigilosas, a aposentadoria compulsória é para autárquicos e elas são CLTs e só sei que nesse vai e vem de notícias desencontradas elas estão se fingindo de mortas, no deixa como está pra ver como é que fica.
Porém, esta situação está deveras me preocupando, já levaram a Eliana, até o fim do ano quiçá, irão as três meninas, a Rejane saiu do processamento técnico foi para o empréstimo que já deu no saco e agora foi trabalhar com a Neusa. Daí pra rua é um pulo, cuidado! Nesse troca-troca a Regina saiu de trás e foi pra frente, para perto da porta de saída. Eu to de olho na Fau Maranhão. Desse jeito vamos ter que por a plaquinha:

O último a sair, favor apaguar a luz e tudo leva a crer que será um morcego.

26/02/2008

16 -Chá das cinco

Estamos em algum lugar do passado misturado com o futuro.
Eram 5 horas da tarde, uma linda mesa havia sido posta para servir o chá das 5. Sobre a toalha de linho branco, estavam as pratarias e o jogo de louças inglesas para servir o chá de jasmim, docinhos, bolinhos e camafeus. A futura diretora da biblioteca estava recebendo alguns ilustres convidados em sua casa, como por exemplo, um tal de Artigas, o Ramos de Azevedo, Raminho para os amigos, uma moça Lina, o Oscar e o jovem Othake.
Entre uma mordida e outra, um gole e outro, a nossa anfitriã soltou o verbo:
- Meu caro Artigas, já que o senhor ainda está desenhando a futura sede da Faculdade de Arquitetura, gostaria de dar umas opiniões, afinal em 2002, estarei como diretora da biblioteca e precisamos discutir alguns pontos....
Mas ela foi interrompida pelo amigo comunista, Oscar:
- Ao meu ver, está faltando um pouco de irracionalidade e imaginação, por exemplo, umas curvas femininas, uns peitinhos, umas ancas...
- Bah! Replicou Raminho. E o anfiteatro? O que você pretende com aquilo? Mais parece um porão!
O senhor Artigas não se conteve:
- E o seu teatro? da platéia não se enxerga nada! Quer coisa pior...
- Para mim está faltando uma cor, que tal um roxo ou lilás? E o nome da Faculdade em neón! Ficaria bárbaro - sugeriu o japonezinho Othake.
- Peraí gente, reclamou a bibliotecária, também loira e possivelmente econômica, estamos aqui para discutir coisas práticas e não as curvas e cores. E voltando-se para o autor do projeto: quero te avisar, pense bem como farás o banheiro para funcionário, pois sei o muquifo que será, um horror!
- Minha cara futura diretora, antes de mais nada, podes me passar os petit-fours? E continuou: agradeço os palpites, mas a minha intenção neste prédio é que qualquer tipo de manifestação seja ouvida em todos os cantos, qualquer som, qualquer palavra...
- Sim! A amplidão da liberdade! interrompeu Oscarzinho.
- Um vão mais que livre. - pensou a senhora Lina.
- Quero lembrar também que o prédio não oferecerá nenhum conforto térmico, aliás será uma enorme geladeira e nos obrigará a usar luvas de dedos de fora para trabalhar. A gente fica parecendo mendigo de filme europeu, outro horror!
Os convidados arregalaram os olhos! E Ela continuou:
- E tem mais, acho bom o senhor aumentar a área da biblioteca, afinal todos os projetos que vocês farão eu terei que dar conta da preservação, principalmente o seu, meu querido amigo Ramos.
- Mas o projeto já está pronto! E foi aprovado em todas as instâncias, não posso mudar mais nada.
- Então mude o sol de lugar, sugeriu Othake com um riso irônico.
Acontece que todas aquelas opiniões já estavam deixando o Senhor Artigas nervoso, ele pediu licença para ir ao banheiro e durante este período os outros convidados continuaram a confabular, criticar e a fazer tititi. Ao retornar o Artigas pediu silencio:
- Meus caros amigos, enquanto estive fazendo as minhas necessidades, cheguei a seguinte conclusão: vou inverter o prédio, assim o sol incidirá na biblioteca, pensarei num banheiro decente, na fachada colocarei uma escultura em néon cheia de curvas. Então até logo que tenho muito a fazer.


Se este encontro memorável aconteceu ninguém sabe.
Se aconteceu, o arquiteto não acatou nenhuma sugestão.
Se não aconteceu, teria sido bom se tivesse acontecido. Deu pra entender?

Letícia 1/10/2002

18 - Sem Norte nem Sul (Katinsky)

Naquele dia ele não chegou com pressa. Deu bom dia, mas não deu o beijo e foi logo perguntando para a Regina:
- A Eliana está aí?
- Deve estar na sala dela.

Ele entrou na biblioteca e foi em direção a sala da Eliana, mas para chegar lá, tem que passar por várias pessoas. Disse apenas bom dia, não beijou ninguém e perguntou:
- Cadê a Dina?
- Deve estar na mesa dela, professor.

Fez meia volta e quando estava saindo da sala, encontrou a Vânia e perguntou:
- A Lisely já chegou?
- Já e deve estar na sala dela..

Neste momento a Eliana chegou:

- Bom dia, professor. A Regina me disse que o senhor estava me procurando e...
- Eu? Não.
- Ele está procurando a Dina, disse a Rejane.
- A Lisely, falou a Vânia.
- Quem? Eu? Procurando quem? Onde?

É, parecia que havia algo de estranho no ar. Naquela manhã o Katinsky não havia beijado ninguém e não doou nenhum xerox para Emily tombar.
Todas entreolharam-se com uma interrogação no rosto, perguntando uma a outra o que se passava. Mas a Rejane esperta notou que estava faltando alguma coisa no Katinsky

- Ô professor, acho que está faltando alguma coisa no senhor....
- O que? Faltando o que? Eu estou aqui, inteiro e...
- Huumm, deixe me ver...
- Não, não está faltando nada em mim.
- Já sei! A bússola, cadê a sua bússola professor?

Só então descobrimos o que estava faltando nele e porque usa a bússola dependurada no pescoço: sem ela ele fica totalmente desorientado.
Nesse momento a Regina veio ao nosso encontro trazendo a bússola e dizendo que alguém havia entregue no balcão de empréstimo.
Assim que a colocou no pescoço, tudo voltou ao normal: saiu distribuindo beijinhos e sacou um folheto do seu bolso, fez mais uma doação, pediu para a Rejane scanear alguma coisa, solicitou um xerox para a Dina e foi discutir a reforma da Fau Maranhão com a Eliana
.
Se demorasse mais um pouco para a bússola aparecer, era bem possível ele inventar um puf roxo de rodinhas, como uma nova cadeira do Katinsky.

Leticia 5/10/2002

24 - Mistério de Lótus

Calma como Krishna, zen feito Buda, esotérica mas não histérica.
Antes de começar o dia, abre o seu livrinho e lê o pensamento do dia e só então, engata a primeira: levanta e vai guardar livros, atividade que, segundo a Célia Zen-Indu, é uma ótima ginástica para os braços e a região do peitoral além de ser uma excelente terapia.
Silenciosa, misteriosa e discretíssima, sabe-se lá o que se passa debaixo dos caracóis dos seus cabelos! Será que fica pensando o quanto a vida é bela? Ou que tudo está uma bela merda? Não. A Célia Zen-Indu, dentro dos seus vaporosos vestidos, vestidinhos e vestidões indianos, não chega a ser uma Poliana, mas não pensaria numa coisas dessas. A vida é uma merda só para os pobres mortais privados do contato com o além: o além-mar, além-terra, além-céu.
Hoje o seu estilo é zen, mas tem cara que já foi da pá virada. Em cada fase da sua vida deve ter sido hippie, punk, cult, patricinha ou bicho-grilo. Fez loucuras na juventude que até Deus duvida, mas agora entoa o Om (coisas de Zen-Budista), acende incenso, lê tarô, estuda astrologia, cromoterapia, Feng-shui, Yoga, Florais e medita em posição de Lótus.
Para mim a Célia Zen-Indu é um mistério, como o Mistério de Lótus, que eu também não sei o que é e por esta razão esta crônica vai ficar assim, curtinha, pois não sei o que falar do seu misterioso silêncio.
Quem sabe se eu meditasse, acendesse um incenso, guardasse livros, lesse as cartas de tarô ou o que está escrito nas estrelas? Quem sabe assim eu poderia dialogar com o seu silencio, poderia entender o mistério.
A única coisa que tenho certeza é que ficar muito tempo na posição de Lótus, doem as pernas.

Posição de Lótus: sentada de pernas cruzadas, mãos sobre os joelhos, polegar unido ao indicador. Faz-se isso para isolar-se do mundo, senão fisicamente, pelo menos em pensamento e conseguindo a proeza de praticamente em nada pensar.
Letícia 4/10/2002

26 - Ira (não é pecado)

Iracema, jovem avó do samba, sirigaita magra de dar inveja a qualquer Gisele, falava pelos cotovelos que nem a Emília do Sítio tinha vez.
Mas coitada, boa pessoa, gente fina, era responsável pelo café da biblioteca. Na verdade, só percebíamos sua falta quando, por motivos justos! (um porre da gafieira que ela foi antes de ontem) não comparecia ao trabalho.
Bom era quando a Ira não irada perdia a voz, conseqüência da cervejinha gelada da sexta-feira e do sereno do domingo, quando de fato, dormia para recompor as suas energias.
Mas a Iracema não cuidava só do café, nããoooo, também tinha de cuidar dos slides, atender atenciosamente aos professores e o melhor de tudo: guardar livros. Esta última tarefa era a que mais gostava, enquanto carregava livro pra cá e pra lá, conversava com eles.
Primeiro olhava a classificação: 724.981 Ar78... e pensava:
- Huummm, senhor Artigas, acho que vou colocá-lo nesta estante, não, é melhor colocar do lado do Niemeyer, assim vocês podem trocar figurinhas. E pof, ficava o A misturado com o N.
- Senhor Rino Levy....deixe-me ver...que tal ficar com o Lloyd? Ele é legal, gente fina mesmo. E pof!
- Ah, ha! Meu querido Othake ! Hoje você vai ficar aí no carrinho. Não estou legal, sei lá..., num tô afins...acho que vou parar por aqui.
E assim a Ira zanzava entre as estantes guardando livros, conversando com os arquitetos até a hora de tomar o café.
Numa quarta-feira de muito frio, uma bibliotecária bisbilhoteira, intrometida resolveu buscar o café. Foi na copa, lavou as garrafas térmicas, três! Pode uma coisa dessas? E quando estava saindo da biblioteca, deu de cara com a Iracema.
A bibliotecária gelou, mas com um ar de superior disse:
- Vou buscar o café, estou louquinha para fumar umzinho.
Iracema, na sua boa paz, respondeu:
- Que ótimo! Agora toda quarta posso chegar atrasada e o meu cargo de cafetina fica para você!
A partir deste dia, o que Cristo passou era fichinha diante da penúria da bibliotecária intrometida. Iracema crucificou-a, carimbou-a, slidou-a, scaneou-a para sempre a cafetina das quarta-feiras.
Haja samba no pé!

Letícia 18/09/2002

27 - A bibliotecária sem senso

Ser bibliotecária não é fácil. Ainda na faculdade, um professor disse que o bibliotecário(a) tem que ter bom senso - o que será que ele queria dizer com isto, meu deus?
Há pouco tempo um engenheiro, só podia ser esta raça boba, nos comparou a um bombeiro, não no sentido de segurar a mangueira, mas da boa ação, de se estar sempre solícita, de tentar de todas as maneiras resolver a questão de um cliente/usuário/consulente/pessoa e sei lá mais que nome dar a essa pobre criatura.
Conheço uma bibliotecária que tem todas essas qualidades e mais um pouco. Resolve tudo, acha tudo e mais um pouco, despenca a estante na maior naturalidade.
Certa vez vi um pobre rapaz/consulente/usuário/cliente/aluno/etc e tal, perguntar sobre um determinado arquiteto. Ela mais que depressa o levou aos terminais e em vez de ensiná-lo a entender a base de dados, ela mesma fez a pesquisa (era mais fácil e rápido) anotou os números e foi na estante. O rapaz a seguiu. A bibliotecária pegou uns três livros e jogou nos braços da criatura. Depois, o levou aos catálogos, afinal, lá poderia encontrar mais algum livro e eureka! Ela estava certa! Anotou os números, foi à estante e pegou mais quatro livros e jogou em seus braços.
Usando uma metáfora, laçou o rapaz até a sua mesa e fez mais uma pesquisinha no índice de arquitetura, em outro índice internacional e em mais outro, encontrou uns dez artigos.
- Bom , temos algumas revistas aqui que já vou pegar, mas essas outras posso pedir os textos via internet, você quer?
Antes de dar chance ao menino para responder...
- Vou pedir, não custa nada mesmo, né? Pera um pouquinho. E clica aqui, clica ali, solicitou o envio imediato dos textos via internet.
O cliente/usuário/consulente tentava dizer que já estava prá lá de bom o que ela havia conseguido. Mas ela no seu afã de atender da melhor maneira possível, usando o bom senso, a cintura, a mangueira, ops, mangueira não! Foi pegar as revistas da biblioteca.
Enquanto isso, ele aproveitou para dar uma escapadinha, carregou os livros até uma mesa , bem longe ao da dela! Para não ser encontrado e mais que depressa procurou o que lhe interessava para tira um xerox e sumir dali, antes que aquela bibliotecária maluca lhe trouxesse mais textos.
Mas não adiantou. Logo ela o encontrou:
- Então, as revistas estão aqui, mas eu achei mais um livro que pode ser legal.
Com um sorriso amarelo, o garoto agradeceu:
- Acho que tudo isso já está bom demais.
- Mas você não quer mais?
- Não, assim está bom....
- Mas eu posso achar mais textos...
- Agradeço muito, mas está bom
- Olha, você fica aí, que vou telefonar para uma amiga minha, que pode me dar mais uma dica.
- Não, não precisa se preocupar tanto, assim está bom.
- Tem certeza? Não quer mais um pouquinho, eu acho!
- Tenho certeza, tudo isso já está bom.
- Então tá.
E ela se afastou pensando:
- Pô esses cara me pedem ajuda e depois desistem no meio da pesquisa, vai entender...
Enquanto pensava, foi interrompida em seu trajeto entre as estantes por outro aluno/usuário/cliente/consulente e sei lá mais o quê:
- Por favor, você é a Dina?
- Sim sou eu.
- É que eu queria tudo sobre o Niemeyer
- Tudo? Você tem certeza que você quer tudo, mesmo?
Ele fez que sim com a cabeça e ela matutou:
- Oba! Essa pesquisa é das boas! E esse não me escapa!


Leticia 1/10/2002

28 - COMPANHEIRA GATA

Para ela, companheiro é companheiro, companheira é companheira, greve é greve e se for geral, melhor ainda.
Foi numa dessas greves na USP, em que pedíamos 101% de aumento - até aquele momento não entendia o porquê do 1% - que conheci a Regina e se revelou uma grande companheira.
Fazia piquete todos os dias, às 5 h. da manhã já estava na porta da Reitoria e não deixava nem o Reitor entrar. Pequenininha e arisca como uma gata, também pudera, com 10 gatos em sua casa, miando com eles todos os dias, acabou ficam igual e aprendendo todas as artimanhas de um miau bem miado.
Diziam até que ela tinha 7 vidas, conclui que era verdade depois que a vi peitando o Magnífico Reitor e conclamando a todos por um salário decente:
Na portaria ela gritava no megafone:
- Companheiros! A luta continua!!. Você aí parado também é explorado!
Lá pelo centésimo dia de greve, o Reitor chegou e viu aquele barraco na porta do seu gabinete, bufou um bafo de alho na cabeça da Regina e ela miou. Tentou ultrapassá-la e ela eriçou o corpo, arrepiou os pelos feito uma gata pronta para o ataque. Soltou um rugido de leão e ela chiou um miau – chissssiiiiiiii ..... e por pouco não pulou no pescoço para esfolar aquela pele branquinha do patrão.
Nós, companheiros e companheiras continuávamos ali, firme ao seu lado, tremendo e temendo com o que poderia acontecer.
Mas, quando chegou um segurança e a gatinha oriental arisca sentiu o cheiro de cachorro, pensou:
- Epa! Sujou! Tô fora.
Apelando para os seus conhecimentos animalescos e orientais, a nossa companheira gata passou por baixo das pernas do Magnífico, correu, zarpou e num salto malabarístico gatuno e kung-funiano foi parar num galho de uma árvore. Mas sem se intimidar com aquela cachorrada, continuou a gritar:
- Companheiros, a luta continua! Você aí embaixo também é explorado... É 101, ôba! É 101, ôba!
Ficamos de olhos arregalados e perdidos com aquela recuada da nossa gata-samurai-companheira e recuamos também.
Assim o Reitor pode entrar em seu gabinete e lá do alto da sua magnificiência nos concedeu 1% de aumento.
Os 100% que a companheirada pedia, ignorou solenemente.
Foi aí que entendi porque pedíamos 101%, pelo menos, recebemos o último dígito.
Toda forma de greve é valida, companheirada

20/09/2002

32 - Alien, o vigésimo pasageiro

TRUUUM, CRASH, TRASH, PUM PAM PAM.
- Quééé é isso...? gente? Perguntou a Rosilene, com a sobrancelha esquerda erguida em arco.
- Esse barulho vem da sala dos projetos, respondeu a Neusa.
A Rosilene foi até lá. Abriu a porta de-va-ga-ri- nho-o-o-.... e:
- AAAHHHH! Socorro! Tem um bicho enorme lá dentro! E fechou a porta correndinho. Neusa? O que a gente vai fazer?
A Neusa com aquele ar de mãe que ensina o filho a enfrentar a vida:
- A gente, não! Te vira, neguinha. Toma que o filho é teu.
- Mas, mas...
A Michely não acreditando muito e com aquele sorriso nos lábios que nunca sai de lá, disse um dexa que eu ver e entrou. GLUP! O monstro, um alien feito de tubos de projetos, a enguliu.
O Rômulo, na sua santa inocência, estava passando por ali :
- Hahaha, um monstro?aí dentro? Não é possível, hahaha.
Entrou e glup mais um para o estômago do monstrengo entubado
Aí veio o Kleber, tadinho... e a Rosilene esperta o solicitou com um jeitinho:
- Klébeerr, dá pra você entrar lá e matar esse monstro?
- Como assim? Matar como?
- Ah, sei lá. Dá uma direita, um pontapé, vocês homens é que sabem brigar, oras bolas.
E antes que ele respondesse um não, se é que ele é capaz disso, ela abriu a porta e jogou o Kleber lá dentro. Ele deu um grito estarrecedor, mas o bicho não comeu:
- Eu hein! Comer você? Muito magrinho, vai me dar indigestão. Fora daqui.
E o monstro jogou o Kleber de volta, que saiu com as perninhas tremendo e os olhos esbugalhados.
-Uai? Ele não te comeu não, é? Porqueee?? Huum esse monstro está me cheirando arte da Let’s.
- Foi você que me pediu outra estória...
- Mas não assim com um monstro. Eu queria uma coisa mais bucólica ou que nem a da Vila. Poxa vida, né? E fez cara de muxoxo.
Mas a Rosilene não se conformava e solicitou socorro:
- Cadê as bibliotecárias? Cadê a Eliana?
- Está na Maranhão
- A Vânia, a Edla, a Mony, a Dina, a Emily ?
- Ô Rosi... tem ninguém não, a metade abonou e a outra está de portaria, você só tem a Neusa.
- Você como autora é cruel demais. André! Cadê o André?
- Foi buscar o café.
- Então a Gislene..Gisleeneee!!
A Gislene com toda a sua calma se apresentou e disse:
- Vou tentar levar um lero com ele, mas acho que ele quer é você, Rosilene.
E não deu outra, a Gislene foi devorada pelo monstrengo.
Aí chegou o Cheng-noiva, todo de branco e entrou. A Rosilene ficou espreitando a porta, minutos se passaram e nada, nenhum barulho e o Cheng não saía de lá. Quando deu uma hora a nossa personagem principal não se conteve. Bateu na porta e o chamou:
- Cheng, você ainda está aí?
- Estou! Espera um pouquinho.
- Você não acha que está na hora de trabalhar? Já faz uma hora que estás aí dentro conversando e nada, qualé meu? Vamos trabalhar, né?
O Cheng saiu inteiro rindo que só e nos contou que o alien entubado é gente fina e adora a cultura oriental.
- Mas e aí? Esse monstro vai ficar aí para sempre? Eu não entro mais nesta sala, nããoo..
- Você, não sei, mas com certeza o André, a Araci e a Ira estão proibidos de entrar afinal, são eles que pegam o nosso precioso café.
- Qual é a sua Let’s?Você cria este alien entubado, mata todos os monitores, me deixa aqui sozinha para resolver este abacaxi e agora? Como você vai terminar esta estória?
- Calma, Rosilene, isto é ficção e como tudo é mentirinha, vamos fazer de conta que o bicho nunca existiu ou vomitou tudo de volta e estão todos vivos e inteiros. Acho que você não gostou muito desta aventura, mas foi o melhor que pude fazer. FIM!

TRUMM, TRASH, CRASH PAM PAM PUM. É o alien indo embora....


Letícia 8/10/2002

33 - O Puf roxo da FAU

Eu ainda era nova aqui na Fau, fazia mais ou menos duas semanas que estava trabalhando. Era inverno, fazia um frio desgraçado e aqui dentro da biblioteca mais ainda. Fui à copa tomar um café para ver se me esquentava um pouco e ao passar pelo setor de projeto levei um susto!
Vi um puf roxo de salto agulha quinze andando em minha direção... Gelei! , congelei, meu coração disparou.
Em minha cabeça passava mil coisas:
- Será que estou sonhando?
- Um super-homem tenho certeza que não é.
- Aqui na FAU está cheio de artistas... será um novo modelo de design de um puf? Assim, roxo, andando de salto em vez de rodinhas e ainda por cima me diz bom dia!
Tentei sair de fininho fingindo que não era comigo, mas de repente escutei o meu nome.
- Cruzes, o puf sabe o meu nome!
- Bom dia Let’s, tudo bem? – falou o puf
Não tinha como fugir e fui obrigada a me virar em direção aquele novo design, fiquei de frente, a voz não saía. O que eu poderia falar para um puf?
Ufa! O puf não estava mais ali só, a Neusa.
Ainda gaguejando com o susto perguntei para Neusa se ela não tinha visto um puf roxo passando por ali?
Ela, no seu instinto maternal do tamanho de um gigante me respondeu sorrindo:
- Puf? Huummm, acho que você deve estar falando do meu casaco, não?
E o meu coração se sentiu aliviado quando vi um tremendo alcochoado roxo pousado no espaldar da sua cadeira.
Com um sorriso amarelo a convidei para tomar um café.
Isso era só o começo da minha aventura aqui na FAU.


Letícia 19/09/2002

34 - O Tombamento do Rodison

Rodison era um menino pacato, sério, responsável e baiano. Depois da sua infância feliz nas ruas de Salvador resolveu tentar a sorte em São Paulo. Veio de mala, cuia e papagaio. Entrou numa renomada instituição superior para se tornar um grande filósofo, quem sabe um Platão sofístico.
Mas ele precisava arrumar um sustento, uma graninha para manter a sua charmosa barriguinha. Eis que presta um concurso e é selecionado para trabalhar numa biblioteca. Era tudo o que ele queria: trabalhar com livros e mais livros! Um paraíso recheado de mulheres, bibliotecárias com seus lencinhos, fichas e regras. Adão só teve uma mulher e o Rodison estaria cercado de várias!
O seu trabalho era fácil, consistia em tombar os livros, isto é, cadastrar num banco o número de entrada do livro, autor, título etc.
E os anos se passaram.... Rodison lendo Platão, Sófocles, Nietszche, Sartre, Chauí e um montão de livros. Na biblioteca ele ia tombando, tombando, tombando, tombando.
Como Chaplin em tempos modernos, o menino pacato, sério e baiano começou a mudar, não podia ver um livro na sua frente que queria tombar, carimbar, colocar um número!
Certa noite sonhou um sonho maravilhoso!!! A sua biblioteca particular de filósofos criou vida. Platão lhe sussurrou que deveria ser o número um da sua biblioteca, Sófocles escutando, gritou que ele era mais importante e portanto, o primeiro, Chauí chiou e exigiu a ordem alfabética, Nietszche em sua loucura determinou que deveria ser o ano da edição.
O menino baiano se contorcia na cama, resmungava e discutia com seus amigos as várias propostas.
Lá fora a noite chovia a cântaros, trovões e raios! Eis que um deles estourou em sua janela e Rodison despertou suando frio e aflito, correu para a cozinha para saciar a sua sede e ao retornar à sala, olhou bem para os seus livros na estante, sentou numa cadeira em posição de pensador e meditou como um bom filósofo.
- O que será que ele está pensando? Sussurraram os filósofos da sua estante.
De repente Rodison levantou com uma expressão no rosto de alívio, da certeza do que sabia o que iria fazer:
- OK! Vocês venceram! Vou tombá-los!
Foi um furdunço na estante.
- Silêncio! Que vou começar!
E num acesso catártico de Apolo, a catarse dos Deuses, começou a derrubar todos os seus livros no chão e gritava:
- Estou tombando todos vocês, hahaha! Todos ao chão....Tombo um, tombo dois, tombo três.
E assim o nosso menino responsável, sério, pacato e baiano estressou-se na nossa São Paulo.




Letícia 18/09/2002