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domingo, 17 de outubro de 2010

Um email


Hoje vou transcrever um email que recebi de uma colega. Acho que jamais conseguiria descrever tão bem o dia-a-dia do processamento técnico de livros de qualquer biblioteca. Para não entregá-la não direi o seu nome nem qual biblioteca.

Letícia do meu heart e eu lá com os livros, com fornadas de livros, ninhadas de livros, toneladas, que eles estão se reproduzindo feito porquinhos da índia, não sei mais o que fazer, onde me esconder.  O Setor de Aquisição tentando empurrar para a nossa porta engradados de livros, e eu tentando jogá-los devolvê-los novamente (pela janela se sabe que é impossível, elas tem grades). E são reposições de livros com livros roubados de outras bbs (sim, acontece isso tb), livros faltando pedaço, livros roídos, cuspidos e mordidos, rabiscados e xixizados. Livros indecifráveis, inclassificáveis, livros escalafobéticos, livros assustadores, livros a puta que o pariu, livros psicodélicos, livros incredibles, livros nada sintéticos.... porque livros arroz com feijão e farofa não aparecem, só essas coisas meio óvnis, multiculturais e trans-über-porra-loucados.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

DEUS NÃO É ARQUITETO, URBANISTA E NEM DESIGNER...

Era uma vez uma biblioteca de Arquitetura e Urbanismo linda, loira, de olhos azuis, pisos brilhantes e caramelizados, livros de arte e arquitetura com capas e conteúdos ma-ra-vi-lho-sos, com funcionários chiques e atenciosos enfim, tudo na mais perfeita ordem. Mas, a perfeição atrai a inveja e o mau olhado e como tudo que é bom dura pouco...
Tudo começou nos idos do ano 2006 depois de Cristo - que Deus o tenha - quando a Vânia resolveu cuidar da sua vida e nos deixou. Ela sair da biblioteca tudo bem, o problema estava em conseguir alguém, tão eficiente quanto, para ocupar a sua vaga e numa instituição pública como a USP, isto significa uma longa batalha de pedidos, faxes, ofícios telefonemas e reuniões com diretores, reitores e/ou chefes de departamento de pessoal.
Foi ainda em 2006 que instâncias superiores resolveram criar um novo curso noturno na FAU, o Design. Só esqueceram que para a biblioteca funcionar a noite precisa contratar mais funcionários e para isto acontecer, deve-se criar mais vagas o que significa uma longa batalha de pedidos, faxes, ofícios telefonemas e reuniões com diretores, reitores e/ou chefes de departamento de pessoal.
Por conta deste novo curso, até que conseguimos 3 técnicos para trabalhar 6h/dia sem muito chororô. E a bibliotecária que ocupou a vaga da Vânia teve que cumprir horário noturno para atender às pesquisas noturnas, portanto, o setor antigo da bibliotecária que foi cuidar da própria vida, ficou a ver navios, barcos, pórticos, fotos etc etc e tal.
Em setembro de 2007, a diretora da biblioteca foi convidada a assumir um posto mais alto na sua carreira, lógico que prontamente atendeu ao pedido da Reitora, com a promessa de uma vaga, assim de mão beijada, sem precisar de batalhas e faxes, ofícios telefonemas e reuniões com diretores, reitores e/ou chefes de departamento de pessoal.
O tempo passou, passou, o verão findou, veio o outono, inverno, outro verão, outono, inverno e agora a beira da primavera de 2008 cadê a vaga? Que vaga? Hein? Anh? Quem falou em vaga?
Neste meio tempo, uma outra bibliotecária nos deixou, não por vontade própria. É que recebeu uma chamada de Deus e quem pode com este arquiteto?
Em junho deste ano, maldito, diga-se de passagem, a bibliotecária “noturna” nos deixou por outras razões que prefiro não comentar.
Vai daí as bibliotecárias que sobraram passaram valer por duas, três até quatro, é que para tudo continuar a funcionar como antes: linda, loira, caramelizada, somos o que éramos e o que as outras, que se foram, eram. Entenderam? Não?
Não precisa entender, só que se um dia você esbarrar numa bibliotecária descabelada, stressada, com sapatos trocados, trocando alhos por bugalhos, pode ter certeza que trabalha na FAU.
Decididamente DEUS NÃO É ARQUITETO, URBANISTA E NEM DESIGNER...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Aleluia! Ela veio!

Segunda-feira cheguei à biblioteca lenta e com os pensamentos embaralhados, acho que é por causa do famigerado aquecimento global, sem imaginar o que estava por vir....
Às nove horas da manhã me dirigi a copa, como de costume e passando pelo Setor de Projetos topei com a Bete. Sim a Bete chegou! a Bete veio! Veio balançar e sacudir a poeira dos livros.
A princípio achei que era uma miragem, que meus olhos estavam confundindo alguma aluna com a figura da Bete, ou pela vista turva devido a falta de chuva em São Paulo, mas aí ela emitiu um som:
- Cheguei!
Pensei alto:
- Deus começou a olhar para nós!! Ai Jesus!
Felizes com a sua chegada, demorou mais veio, festejamos com um bolinho e café na copa. Enfim mais dois braços para guardar livros, mais duas mãos para digitar o que for preciso, mais uma boca para comer os biscoitinhos na copa! E depois dos blábláblás, das fofocas, dos comentários do fim de semana, nos perguntamos:
- Quem vai ficar com a Bete?
Suspense.....
A Rosilene já estava lá, toda serelepe, mostrando o seu setor, o de Projetos. A Mônica precisando urgente de alguém para por a sua prole em dia (explicando a prole: Índice de Arquitetura Brasileira e o cadastro da Produção (in)científica).
Eu preciso de um ser pensante para tombar as doações, que andam caindo na minha mesa feito bala perdida dos morros do Rio de Janeiro.
A Turma da Dina, isto é, do atendimento, sabe, aquele povo que fica no balcão sempre sorrindo, engolindo sapo, abelha, mosca, pois quem encosta o umbigo lá, “tem sempre razão” , mestre ou aluno? nem piou.
A Edla, a bibliotecária turista e chiquééérrrimaaa, que já está indo viajar logo logo, nos deu um golpe de mestre usando a sua arma poderosa: desceu do salto Cordoban, abriu a sua bolsa da Fendi e de lá tirou a sua arma! E com um Tsssss vaporizou o nosso ar com o seu Chanel n.5, nos paralisando feito estátua e impedindo qualquer reação ao seu próximo golpe fatal:
- Bete, você é minha! Sente-se aqui que vou chamar a Regina para te ensinar o serviço, pois ainda tenho que fazer umas comprinhas virtuais.
Quando o efeito do perfume passou, depois daquele quem sou eu, onde estou? Nos demos conta que era tarde demais a Edla já havia a cooptado, pra não dizer seqüestrado.
Mas como nós trabalhamos em equipe e sabendo do breve embarque da chiquéérrimaaa rumo ao United States, é bom que a Bete assuma o serviço, antes que sobre mais serviço para a Mony.
De qualquer forma, vai um soneto:
Bete.
Esteja onde estiveres.
Tu és bem vinda.
ALELUIA!!!!!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Os Anjos no Céu

Depois de um longo sono tranqüilo, sem apnéia, sem chuva na cama, Emily abriu os olhos. Não reconheceu nada a sua volta e aflita foi logo pensando alto:
- Onde é que estou? Pra onde vou? Será que hoje é dia do meu rodízio e perdi a hora de novo?!
Levantou-se das nuvens em que estava deitada e encontrou um belo café da manhã, repleto de papo-de-anjo, chás, leitinhos, chocolates, tudo o que podemos imaginar. Sem cerimônias Emily deitou e rolou nas guloseimas. De barriga quentinha, espreguiçou-se e notou um lindo portal de ouro a sua frente, com um senhor gordinho olhando para ela:
- Seja bem vinda dona Emily!
- Pode me chamar só pelo nome, mas ki ki é isso aqui? Onde é que estou? Pra onde vou? Pra esquerda ou pra direita? Cadê a Edla? Cadê a Mony? E a Célia, Let’s, todo mundo! Céus kikiéisso aqui?
O gordinho de barba branca, vestido de santo, respondeu:
- Calma! cara amiga, você está no céu e esse povo vem depois, agora você encontrar outras amigas por aqui.
- Céu? Fazendo o quê? Como é que vim parar aqui?
- Ai meu Deus! Todo mundo faz esta pergunta quando chega aqui...
E antes de terminar a frase, o santo foi interrompido pela sua secretária:
- Emily! Você chegou! Estava morrendo de saudades!
- Dora! Quanto tempo! Também morri de saudades, mas me explique onde estou?
- Pô Emily, no céu! E você não sabe quem também está aqui...a Sonia e...
- Bom, já que você já está integrada com os anjos do céu, deixou-a nas mãos da minha eficiente secretária, a Dora, para explicar como é que as coisas funcionam aqui – interrompeu o Santo.
- Ki ki é bem? Não escutei.
O Santo caiu na gargalhada, balançando a barriga:
- Ô meu anjo, aqui no céu ninguém tem defeito de nascença e nem doenças. Você escutou muito bem.
- Pódeixar São Pedro que explico tudo, interveio a Dora puxando a Emily através do Portal para entrar definitivamente no céu.
De olhos arregalados e boquiaberta, exclamou:
- Noooossaaaa!!! Aqui é mais bonito que o céu do Líbano!
Nisso ela escuta uma voz amiga:
- Emily! Tu chegou! Me conta, como vai o povo da FAU?.
- Sônia! Que saudades...Estou feliz por encontrar vocês aqui, não vou me sentir solitária. Mas me contem o que a gente faz aqui no céu? O café da manhã estava divino!
A Dora e a Sonia entreolharam-se e caíram na gargalhada: aqui tudo é divino e maravilhoso!
- Meninas, o que vocês andaram fazendo por aqui, durante esses anos?
- Bom, depois da experiência de secretariar o Antônio Henrique Amaral, Deus me incumbiu a tarefa de auxiliar todos os Santos, ou seja, São Pedro, São Paulo, Santo Antônio, São Expedito, enfim, todos.
- Nossa Dora e você dá conta?
- Afê, tiro de letra, isso não é nada. Lembre-se que construí a minha própria casa em Piquete, trabalhei com a Granja, com Antonio Henrique e a Norma. Os Santos são santos perto de todo esse povo. O único que dá mais trabalho é Santo Antônio, está difícil arrumar homem para tanta mulher solteira.
- É pensando assim, você tem razão. E você Sonia, que anda fazendo?
- Bah tchê, tu não imagina, logo que cheguei aqui abracei a causa dos Anjos Sem Nuvens. Foi lindo! Todos aqueles anjinhos barrocos caminhando e cantando. O anjo Gabriel foi quem representou os anjos na Comissão Celestial das Nuvens.
- Ele é porreta, interrompeu a Dora.
- Eu só orientei como tinha que reinvidicar as nuvens, contei a minha experiência, sabe? Aquelas maravilhosas greves da USP, as passeatas no Palácio do Governador, na Paulista, as bombas de gás lacrimogêneo, você sabe, né?
- Sei, sei, mas aqui também tem isso.
- Nãããooo... Aqui tudo é light, divino e maravilhoso. Depois te conto os detalhes.
- Tem biblioteca aqui? Será que posso trabalhar lá? – perguntou a Emily, ansiosa.
Mas um anjo-barroco-mensageiro, cortou a conversa trazendo um convite para a Emily. A Dora olhou e sorriu:
- Esse programa você vai adorar!
- Ki ki é isso? Um convite para um recital do Tom Jobim! Acompanhado por Mozart em pessoa! Ai, aiai, aiai, sem dúvida estou no céu!
- Então, Emily, esta será a sua função aqui no céu. Organizar recitais, ninguém melhor que você para trazer as atualidades da terra.
- Esqueça as bibliotecas, isso pode esperar a Let’s, que quando chegar vai processar tudo num piscar de olhos e não precisa se preocupar com espaço, que é divino, maravilhoso e infinito! Retrucou a Sônia.
- E nem descartar, explicou a Dora.
- Então gente, mostrem o céu!
- Com prazer, responderam as duas em coro, e aqui não tem problema de goteiras e desconforto ambiental.
- Ai que maravilha! Divino!

E assim, nossas três amigas foram felizes para a eternidade.

quarta-feira, 12 de março de 2008

3 - Meia Nove, a melhor idade.

Trabalhar na USP é pior que participar do Campeonato Brasileiro de Futebol, se este é uma caixinha de surpresas, aquele é uma implosão de emoções, que são tantas e capazes de arrepiar os caracóis de nossos cabelinhos com escovas progressivas.
Era uma segunda-feira ensolarada de janeiro, repito, dia do meu rodízio, dia que fico trupicando nos pés e batendo a cabeça de tanto sono. Geralmente sou que nem corno: o último a saber, mas neste dia estava completamente outsider e não percebi o zumzumzum do lado de lá da minha sala.
Aí para saber do acontecido, a Mony teve que me ligar em casa já a noitinha, deixando seus filhos de lado – coitados- berrando pelo jantar! só para contar que as nossas queridas beach-girls e a conselheira para assuntos diversos, vulgo, Emily, Edla e Araci respectivamente, receberam uma carta da Reitoria lembrando-as – e precisava lembrar? – que completarão 70 anos e por conseqüência, serão aposentadas querendo ou não. Foi uma choradeira. Cruzes, eu disse, fudeu.
Foi um tremendo choque, uma falta de ética revoltante, falta de sensibilidade, falta de etceteras, não só porque espalhou para o mundo! que as meninas estão no meia-nove, como também serão praticamente expulsas desta magnífica instituição; como se as nossas super-hiper-mega-blasters girls não tivessem mais utilidades.
Ficamos catatônicos. E agora quem vai nos servir chazinhos vermelhos e rosas? Quem vai nos atualizar com as novidades do mundo fashion? Quem vai comprar revista pensando que é livro? E a tia Sumaya? Como é que fica? Quem vai nos interromper de 5 em 5 minutos: - Ki Ki é bem? Não escutei [aí a gente repete a conversa desde o início, que nem sempre chega ao fim].
E eu, que ficarei sem a minha consultora para dias melhores que estão por vir? Vocês sabem que a Araci é uma ótima conselheira para todos, outros e quaisquer assuntos, principalmente os sexuais. É só mentalizar a coisa que você quer, que pimba! Dá certo. Juro que estou tentando.
A Edla com aquele bronzeado de rica, que pobre não bronzea, tosta; caiu em prantos: quem vai cuidar do meu Kardex? Buááá´. Mas como uma lady já deu a volta por cima. Decidiu esquecer este momento 69 deprê e vai dar um rolê logo ali nos unaites estades.
A Emily, também com o bronzeado ubatubense de gente fina, ficou um pouco mais aérea e não sabia se ia ou se vinha, mas não chorou. E nós não percebemos muita diferença no seu comportamento.
Já a Araci foi mais racional: pôs as cartas na mesa, digo, todos os santinhos que podemos imaginar, fez uma prece pra Deus Nosso Senhor, Nossa Senhora, Santa que desata nós, santo Expedito, São Jorge, Nossa Senhora de Aparecida, ufa! E fez um contato imediato para a filha verificar na reitoria, como é que é esse babado.
Segundo investigações sigilosas, a aposentadoria compulsória é para autárquicos e elas são CLTs e só sei que nesse vai e vem de notícias desencontradas elas estão se fingindo de mortas, no deixa como está pra ver como é que fica.
Porém, esta situação está deveras me preocupando, já levaram a Eliana, até o fim do ano quiçá, irão as três meninas, a Rejane saiu do processamento técnico foi para o empréstimo que já deu no saco e agora foi trabalhar com a Neusa. Daí pra rua é um pulo, cuidado! Nesse troca-troca a Regina saiu de trás e foi pra frente, para perto da porta de saída. Eu to de olho na Fau Maranhão. Desse jeito vamos ter que por a plaquinha:

O último a sair, favor apaguar a luz e tudo leva a crer que será um morcego.

26/02/2008

4 - Tédio

Que tédio!
Não, não vou falar do avião da TAM, já tem muita gente melhor que eu escrevendo sobre o acidente; e sim do tédio, do silêncio, das saudades dos colegas de trabalho.
Aqui, deste lado de cá da biblioteca, estamos eu, vulgo Let’s, a Edla Marie (Maria é pros pobres) e a companheira Regina. A minha mesa fica numa ponta da sala e as duas lá, bem lá longe do outro lado. Só escuto um burburinho da conversa entre as duas e o barulho dos meus cliques e das teclas teclando o teclados.
Que marasmo está aqui!
Por incrível que possa parecer, estou sentindo falta do telefone berrando para a Emily e da músiquinha do seu celular. Há dias não escuto; “TIA SUMAYA!!!” “ALÔ, ALÔ DÁ PRA FALAR MAIS ALTO?”. “AINDA CHOVE NO MEU APARTAMENTO!”. “O SENHOR AINDA NÃO MANDOU A COTAÇÃO”.
Estou sem a minha companheira de café para falar do Jack Bauer (lindo e porreta); trocar figurinhas sobre filmes; para saber as últimas notícias do uol.com.br, do estadao.com.br e outros pontocompontobr....
A Vila, mesmo silenciosa e falando baixinho, ainda produz algumas ondas sonoras.
Da Célia vem o barulho da impressora, principalmente quando as etiquetas “engastalham no rolo da impressora” (#@$&*$*#*#!!!!*&!); o som metálico da tesoura sendo colocada na mesa e o infinheki da fita transparente (durex é pros pobres)
Falta também a Eliana dando os últimos informes dos babados lá de baixo: diretoria, tesouraria, compras e afins.
Até o Katinsky sumiu! Sinto falta do seu bordão: “Ah Rá! Tá todo mundo conversando! Cadê a chefa?”. Até tu, Brutus! Nos abandonou.
E os puxa-sacos? Onde estão? Tô de diretora há 9 dias e ninguém me deu nada, nem um bolinho, uma bolachinha, um pão de queijo, um chazinho, nadinha....
Será que já se acostumaram com o meu estilo light de chefia? Será que terei de endurecer, sin perde la ternura? Esta é a primeira crônica que não termina com a frase: “e fomos comer bolo para comemorar” Fim xôxo, não?
18.07.2007

5 - Ériquinha! (Feliz aniversário)

- ÉRIQUINHA!
É assim que eu a cumprimento quando a encontro sentada no micro, digitando, digitando, com aquele negocinho no ouvido.ÉRIQUINHA! Boa tarde!, não sei porque ela se assusta? Dá um pulo na cadeira e diz: AI! Que susto! É um maior furdunço, só porque falo um pouco alto: É-RI-QUI-NHA!

Lógico que capricho no É da Érica. O diminutivo é um agrado que não sei se agrada, mas acho que combina com a meiguice de sua pessoa.
Mas tudo isso só acontece quando ela aparece, quando não tem trabalho da faculdade, quando está bem de saúde, quando o ônibus a deixa chegar, quando ela acorda cedo, quando, quando, quando, sei lá mil coisas..... É-ri-qui-nha é uma caixinha de surpresas. Todos os dias nos perguntamos:
- Será que ela vem?
E se não vem:
- Será que ela está doente?
Não faz muito tempo foi um auê, aqui no lado de cá da biblioteca. Nossa Ériquinha sumiu uma semana sem dar satisfação. A Célia, a Regina, a Mony, ligavam para o celular e caía na caixa postal, ligavam para a casa e ninguém atendia, ligavam para a mãe e necas de pitibiribas... Aí pensamos o pior:
- Tá no hospital entubada.
- Mas a mãe nos teria avisado.
- Foi seqüestrada.
- Será?
- Liga na ECA!
- Cruzes, nem tanto...
- Ah! Há! Descobri! – gritou a Regina – Ela não vem porque tem um monte de trabalho para fazer.
- Aaaaaaa boooommmm..... fizemos em coro. Mas bem que podia ter avisado, né?

Já avisei para a Ériquinha trocar de profissão, bibliotecária não tem futuro.
Já falei vai ter que agüentar us susuários chatos, vai ter que dar assunto e classificação pra livro que ninguém vai ler e depois vai destombar e descartar; vai ter que procurar livro que ninguém encontra; vai ter que descobrir se, aquele livro de capa colorida tamanho médio em inglês, é o que o professor jura que consultou um dia na sua vida. E mesmo assim, ela insiste em estudar biblioteconomia; pra mim, aquele negocinho no ouvido não a deixa escutar a voz da sabedoria!. Reclamou que só a avisei no último ano do curso, oras bolas, nunca é tarde para mudar.

- Ô ÉRIQUINHA! Eu tô avisando....Mas já que você insiste, persiste e não desiste, vamos comemorar o seu aniversário. Vamos ao bolo!

19/10/2007

7- Zuleide

Não resisto, deve ser sina fazer da desgraça alheia o riso de alhures. A minha sina de falar dos outros em contos e crônicas já me colocou em maus lençóis e saias-justa, principalmente quando encomendam uma crônica, então vai esta que foi encomendada pela bruxinha Zuleide. Batizei-a com este nome, porque o que anda acontecendo nesta biblioteca só pode ser coisa de bruxinha chamada Zuleide.
Desculpe-me, não faço por mal, antes pelo riso e sorriso da Ira. É que há dias, numa noite caliente de vendaval nestes cantos de Sampa, assucedeu-se uma desgraça: a nossa amiga Luciene ao chegar em seu ínfimo lar, porém aconchegante, quis acender a luz, que não se manifestou. Ajustou então, o olhar à escuridão e qual não foi a sua surpresa ao perceber que o teto da sua sweet home havia despencado corroído por cupins. Inseto ou animal, ou sei lá que classificação dar a este vil personagem, muito comum nesta cidade.
Imagino o seu desespero, desânimo e tristeza ao ver todos os seus pertences em meio ao pó e pedras, quebrados, rasgados e perdidos para sempre. Imagino também o choro desesperado diante de tal catástrofe, e o que uma fumante podia fazer aquela hora, se não sentar-se ao meio fio e fumar, tragar o mundo bestialógico de injustiças? Eu faria o mesmo.
Mas nem tudo estava perdido, pois a Ira num ímpeto de bondade ofereceu-lhe guarida em sua modesta casa, a única condição era agüentar a Ira falando pelos cotovelos. Sem saída, aceitou o convite e lá foi a Luciene de mochila e cuia (a única que sobrou) em cima do seu salto plataforma, aboletar-se na casa da amiga.
Deus não tem culpa se levaram o carro da Lisely, se a carteira da Dina e as tintas da Rita sumiram, se levaram todos os toca-fitas da Lisely (de novo?), se chove na cama da Emily, se a Edla escreve de ponta cabeça, se a Let’s continua fazendo e não pagando promessas, se o teto do quarto da Ira também desabou e se todo mundo abona no mesmo dia.
Por isso concluo: Isso só pode ser coisa da Zuleide!

1/12/2006

12 - Homenagem ao meu Rei.

Estou deveras triste, pois o meu rei, o meu muso, a minha fonte de inspiração, o Rodi se vai. Vai nos deixar e agora? quem vai encher o meu carrinho de livros, que quando estou prestes a esvaziá-lo, vem e diz:
- Ó, estes são compras.
- Estes têm produção científica.
- Estes estão pedindo com urgência.
- Este, não cabe no armário.....
E assim por diante, sempre com uma desculpa para encher o meu saco, ops, o carrinho. Mas às vezes o meu rei é um doce, me trás, junto com uns livrinhos, um bombom para adoçar a minha vida...
Mas só ás vezes!!!

Pois é, aquele baianinho que um dia largou o sol e a vida lenta de Salvador e veio de mala, cuia e papagaio, para tentar a sorte na apressada São Paulo, se deu bem, de tombador de livros virou um mestre filósofo ou será um filósofo mestre? Sei lá, pergunta pra ele.
Trabalhou por anos numa biblioteca obviamente cheia de mulheres, feito um paxá no seu harém, ainda que este harém não fosse lá essas coisas.

E foi nos primeiros dias de janeiro de 2006, ano do cachorro! que o Rodison chegou para a Emily e disse:
- Emily, ó, assim.. é que, então, eu fiz um concurso para professor...
- Que?! Peraí – arrumou a mesa, fechou todas as janelas do windows, desligou o celular, olhou para aquele ser pensante que a aguardava e disse: - Pode falar.
- Então, como eu estava falando, prestei um concurso ...
- Como? Concurso? De quê?
- Con-cur-so para ser pro-fes-sor no Es-ta-do...- falou meu rei, pau-sa-da-men-te tentando ser o mais suave possível com sua chefe, mas não adiantou muito.
- Mas então você vai nos deixar? Vai pedir demissão, peraí a gente pode ver com a Eliana, ou no DP, ou com o diretor, ou na Reitoria, para não perder o seu FGTS!

Com toda a paciência e a pressa baiana que Deus lhe deu, ele continua:
- É o que estou tentando lhe dizer...e...

Emily se agita, levanta da cadeira e solta um Ai Meu Deus! Não posso ficar sem você!
- Quem vai tombar? Quem vai destombar? Quem vai te substituir? Quem vai me agüentar? Quem vai controlar as compras? Quem vai preencher os pedidos? Quem vai atender o telefone? Quem? Quem? Quem vai?

E continuava agitada, anda pra lá e pra cá, toma um copo d´água, chama a Eliana:

- Eliana! O Rodison vai embora!
- Edla! o Rodison vai ser professor!
- O Rodison vai nos deixar!
- E agora Rodison? Como é que vai ser?

Estava para ter uma síncope cardíaca, um piti dos bons, então, ele suspira um suspiro profundo e diz:

- Diante de tantas perguntas as quais não sei se vou poder responder, assim, então, você Emily, tem que entender. As coisas mudam, a vida muda, as pessoas mudam e eu, não sei, é a vida. Um dia a gente está aqui, noutro ali, qualquer ser pensante é dialético e eu sou um ser pensante. Penso, logo existo e eu existo, sabe? estou aqui, Emily.... em carne e osso, ao vivo e a cores, sabe? assim, então, quero dizer, que todo este tempo que trabalhei aqui foi ótimo (frisando bem o óóó) as pessoas são ótimas, trabalhar com livros é ótimo, mas a minha vida está mudando, eu estou mudando, as coisas mudam. Veja bem, durante anos a minha aparência foi mudando, eu tinha cabelo, por exemplo, no meu interior agora sei nadar, mudei de casa e agora vou mudar de emprego. Então, assim. Ta.

Parou um pouco para respirar. A Edla só foi capaz de responder : É tudo muda....e continuou lendo o email da filha dos Estados Unidos, que mandou uma nova foto da Sofia.
A Emily continuava sem som. A Célia sem palavras, a Eliana bebendo água, a Vila atendendo ao telefone e a Regina sorriu e disse: É isso aí companheiro!

Meu rei olhou para o relógio:
- Então gente, vou tomar café.

E se foi deixando o seu pequeno harém boquiaberto com as suas profundas palavras.
E eu só fico aqui pensando, quem é que vai por ordem naquelas malditas doações.

Ah! Meu rei! Me deixe não.

Letícia 30/01/2006

13 - O dia que a Let’s pirou ou piorou

Era uma vez uma Let’s tranqüila que trabalhava no seu mundinho de processamento de uma famosa biblioteca. Classificava os livros que queria, do jeito que queria. Inventava mais trabalho para ela e também para outros setores.
E assim caminhou a sua humanidade por cinco aprazíveis anos.
Mas eis que um dia uma superbibliotecária veio convidá-la para mudar de setor, (para substituir outra super), sabe aquele Puf de rodinhas? É, foi ela quem a convidou! propôs novos trabalhos, novos desafios, uma nova era na sua vida-besta. Os olhinhos da Let’s brilharam! E ela pensou, pensou, pensou: era um novo desafio, vou ou não vou, eis a questão!
Ela foi.
No começo tudo parecia um paraíso, a Neusa foi ensinando, a Rosilene dando as dicas, a Ira rindo.... No início, o rítmo de trabalho era nem lento e nem super-rápido, era quase rápido, porém a Let’s foi agüentando o tranco e achando que a vida era aquela beleza....
Mas como nem tudo são flores e nem paraíso, o povo do setor de projetos começou a mostrar a sua cara. Começaram pisar fundo no acelerador e a rodinha zuuummm ia pra lá e pra cá e a Let’s foi entrando no furacão, vulgo Puf roxo, rodando no centro do tornado, em meio a tempestades de usuários, projetos, cds, vídeos, mapas e tudo o que havia ali. Os cabelos começaram a arrepiar.
E a Neusa com aquele jeitinho manso de falarbaixinhorapidinhoquemonitornão
podeveremailvocênãopodenavegartemquetrabalhartemquechegarnahoratemquesercompetentetemquefazerexposiçãoindexarprojetovideocdmapafotografiaosaltofazendotoctoctocmontacdhomepage-respira-tomaáguacafécháfazxixivoltapramesanãorespiraatendedesaprende
stresspira - respirafundo- e BUM!
A Let’s pifou!
A Rosilene correu para acudir, abanava, trouxe um remedinho:
- Ira ajuda aqui...
Ira rindo: - Ajuda aqui, hehehe.
- Levanta um pouco a cabeça.
- Levanta a cabeça, hehehe, a Valéria já fez isso comigo....
Não pode continuar, pois a chegada das três Marias causou um alvoroço, a Mony-Maria foi logo gritando:
- Vocês estão loucas?! Não mexe no corpo, ninguém mexe até o bombeiro chegar.
Edla-Maria dá um palpite:
- Deve ser a escoliose ou a lordose mas parece mais esclerose, isso aconteceu com uma amiga minha.
- O quê? O que você disse?
A Edla vai abrir a boca para explicar o acontecido para Emily-Maria, mas é interrompida:
- Peraí, deixar eu aumentar o volume do meu aparelho.
- EMILY! A LET´S PIFOU.
- Quê? Peraí, ainda não sintonizei direito, quem fez isso com ela?
A Mony bufa, a Edla desiste de explicar e vai para a copa preparar um chazinho rosa, neste momento a Satiko entra na copa e pergunta:
- Huuummm, o que você está fazendo.
- Um chá rosa pra Let´s que pifou.
- Chá? Huuummm. Olha a caixinha, cheira, põe o óculos e vê o preço!
Cruzes você pagou tudo isso? Lá em Atibaia tem chá rosa, verde, amarelo, azul, todas as cores, bem baratinho...
E a Let´s continua lá, estatelada no chão esperando socorro. Os outros colegas de trabalho estão voltando do almoço e aos poucos vão se aglomerando em volta daquele corpo largado e arrepiado no chão amarelo-frio.
A Lisely tem um choque ao adentrar pela porta de vidro e deparar-se com a cena inusitada, solta sua voz de menina-direita-de-colegial-de-alguma-Nossa Senhora:
- Coitada, como vocês a deixam assim? Agacha e arruma a roupa, escova os cabelos arrepiados
- Pronto agora sim, pode chamar o bombeiro.
A Célia pega um almofadão estampado, não o Puf é claro, acende um incenso, senta ao lado do corpo e começa um ritual reikeano energizante.
- Deus manda fazer sexo só para procriar, mas acho que o caso dela é urgente pra relaxar, aconselha a conselheira irmã Araci.
- Que sexo nada! Se ela tivesse três gatos, quatro cachorrinhos, cinco peixes, um papagaio, umas tartarugas e fizesse piquete não estava aí estatelada. Resmungou a Regina.
Da janela a Rita grita: Ô Let´s vem fumar um cigarrinho aqui na janela, que esse piti passa!
Mas o Rodison não se conforma:
- Ah, se fosse comigo... eu nem deixava isso acontecer, porque as coisas não são assim, tem muita coisa fora de lugar na minha mesa, na minha casa, na minha cabeça, mas sabe, sei lá, isso é uma absurdo!
A Eliana ao passar pelo Projeto em direção à copa, vê aquele tumulto e pergunta: o que acontece? A Rosilene tenta explicar, a Ira ri, todos falam ao mesmo tempo, mas a Mony põe um ponto final falando mais alto e resume a história dizendo que o bombeiro logo chegará.
- Bom já que está tudo resolvido, je suis desolée, e como aqui não é lugar para tumulto, dispersem, deixem as duas resolverem o problema. Elas que se entendam.
E dirige-se para a copa acompanhada da Vila, que também arrisca mais um palpite para a situação:
- Acho que ela precisa comprar um produto da Avon ou da Natura, pode ser também um calcinha. Qualquer coisa, contanto que compre.
A Dina não viu nada porque ainda não chegou, a Rejane não se interessa pelo tumulto porque já sobrevive num, oito horas por dia.
Mas eis que chega a causadora do piti da Let´s, a chefe supersônica-atômica-Neusa. Entra calmamente na sala, guarda a bolsa, engata a primeira,a segunda pula pra quinta e atendeumalunofalacomaRosileneemprestaumCDescaneiaumafotoolhaaquilonochão e cai na gargalhada:
- Coitada! A Let´s pifou e o trabalho nem começou!
Aquele corpo estatelado, arrepiado, estendido no chão, que pensava em levantar-se, ao escutar as palavras sábias do conhecimento milenar japonês, achou melhor não arriscar mexer nem os cílios, era mais prudente esperar pelo o bombeiro.
Quem sabe ele a tirava daquela enrascada e valesse a pena a troca.
Mas ainda falta um personagem!
Prof. Katinsky chega beijando todo mundo e dando as alfinetadas;
- Ah, ha! Ninguém está trabalhando, tá todo mundo aqui conversando.
Mas antes que alguém lhe dê uma resposta ele emenda:
- Tem café? Tem bolo?
Alguém responde:
- Tem professor, o bombeiro chegou, a Let’s melhorou e vamos festejar.


Letícia 30/8/2005

17 - Descartando setembro

Não era 11 de setembro, mas era setembro..... Primavera? Dia quente de sol? Chuva? Sei lá meu! Não lembro como estava o tempo lá fora, só lembro que aqui dentro, o tempo estava fervendo!
Quando cheguei na biblioteca ela já estava trabalhando. É óbvio que já estava lá, pois sempre chego depois...
Com toda a sua aflição, fazia tudo ao mesmo tempo: atendia aos telefonemas, reclamava do micro que não funcionava, falava com as colegas de trabalho, selecionava e descartava os livros... huuummm...acho que foi isso que a fez ter um piti.
Aquela manhã de setembro, nenhuma torre caiu, nenhum Carandiru foi inaugurado, nenhuma multidão foi assassinada, somente um colega desapareceu misteriosamente.
A Emily estava nos dias, no dia do descarte e nós sabemos que ela é um arraso nesta arte e como!
Logo cedo a Emily se pôs a executar a tarefa: pegava um livro, abria, via a ficha de empréstimo e pensava: - esse livro nunca saiu, descarte.
- Esse aqui saiu só em 1996... e este então? Em 88!
E ZAP! Como o Zorro que passava a espada no estômago dos inimigos, a Emily passava a espada do descarte nas estantes.
- Descarte, descarte, descarte.
E o Rodison, como o heróico Sancho Pança, foi obedecendo à suas ordens e separando os livros.
O dia foi passando e a gente começou achar que ela estava exagerando, mas ninguém tinha a ousadia de falar que não era preciso limpar o acervo daquele jeito.
E a Emily na empolgação foi descartando, foi descartando... ao final do dia 80% do acervo estava no chão para doar à alguma biblioteca.
- Ufa! Missão comprida. Rodison! Pode levar tudo lá para dentro para descartar...
Mas ele não respondeu.
- Rodison! Rodison? Cadê vocêêê???? Gente o Rodison sumiu!
Foi uma polvorosa, cadê o Rodison? Onde ele se meteu? E todos nós começamos a chamá-lo, a procurá-lo, até que alguém ouviu um pedido de socorro lá loooonngeeee, bem baixinho...
- Socorroooo..................
Alguém gritou :
- Achei o Rodison! Ele está aqui no 711.4098611293827364!!!!! está embaixo de tudo!!
- A Emily descartou o Rodison!
- AAAhhhh, Emily, ele ainda serve pra alguma coisa...
Ela tentou se explicar:
- Gente! O Rodison não! Eu me enganei, ele fica, põe na estante de novo!
Tiramos o nosso querido baianinho dos escrombos livrescos, não era um Trade Center, mas chegava perto, diante da cara amassada e do corpo amarrotado do nosso heróico ajudante de descartes.
Nada como um café da Iracema para recuperar as energias do Rodison, afinal só ele não foi descartado, o resto foi....


Letícia 20/09/2002

18 - Sem Norte nem Sul (Katinsky)

Naquele dia ele não chegou com pressa. Deu bom dia, mas não deu o beijo e foi logo perguntando para a Regina:
- A Eliana está aí?
- Deve estar na sala dela.

Ele entrou na biblioteca e foi em direção a sala da Eliana, mas para chegar lá, tem que passar por várias pessoas. Disse apenas bom dia, não beijou ninguém e perguntou:
- Cadê a Dina?
- Deve estar na mesa dela, professor.

Fez meia volta e quando estava saindo da sala, encontrou a Vânia e perguntou:
- A Lisely já chegou?
- Já e deve estar na sala dela..

Neste momento a Eliana chegou:

- Bom dia, professor. A Regina me disse que o senhor estava me procurando e...
- Eu? Não.
- Ele está procurando a Dina, disse a Rejane.
- A Lisely, falou a Vânia.
- Quem? Eu? Procurando quem? Onde?

É, parecia que havia algo de estranho no ar. Naquela manhã o Katinsky não havia beijado ninguém e não doou nenhum xerox para Emily tombar.
Todas entreolharam-se com uma interrogação no rosto, perguntando uma a outra o que se passava. Mas a Rejane esperta notou que estava faltando alguma coisa no Katinsky

- Ô professor, acho que está faltando alguma coisa no senhor....
- O que? Faltando o que? Eu estou aqui, inteiro e...
- Huumm, deixe me ver...
- Não, não está faltando nada em mim.
- Já sei! A bússola, cadê a sua bússola professor?

Só então descobrimos o que estava faltando nele e porque usa a bússola dependurada no pescoço: sem ela ele fica totalmente desorientado.
Nesse momento a Regina veio ao nosso encontro trazendo a bússola e dizendo que alguém havia entregue no balcão de empréstimo.
Assim que a colocou no pescoço, tudo voltou ao normal: saiu distribuindo beijinhos e sacou um folheto do seu bolso, fez mais uma doação, pediu para a Rejane scanear alguma coisa, solicitou um xerox para a Dina e foi discutir a reforma da Fau Maranhão com a Eliana
.
Se demorasse mais um pouco para a bússola aparecer, era bem possível ele inventar um puf roxo de rodinhas, como uma nova cadeira do Katinsky.

Leticia 5/10/2002

19 -Peça em 14 Cenas indecorosas

Cena 1:
Dia de pagamento. Todos felizes. São 14:30 h, todos já almoçaram e passaram no banco, estão com dinheiro vivo. Agora estão trabalhando e conversando.

Cena 2:
Rosilene passa nas mesas com papel e caneta na mão. Vai parando em cada mesa e pedindo dinheiro:
- Oi, tudo bênhe? São R$ 1,50 de cada aniversariante, o total é R$ 6,00, tá? – fala com a maior naturalidade, sem vergonha alguma de pedir dinheiro aos seus colegas.
Uns pegam a carteira, outros abrem a gaveta, um ou dois levantam-se para buscar a bolsa no banheiro. Àqueles que dizem que não tem trôco, ela responde:
- Tem problema nãão, eu tenho troco...
Ou:
- Depois eu volto com o trôco, tá? Mas tem que pagar agora, já.
Cena 3:
Ela na mesa contando o dinheiro e guardando num envelope e depois na gaveta.

Cena 4:
A Rosilene tomando remédinho natural para gastrite.

Cena 5:
A Rosilene cobrando um CD de um usuário.


Cena 6:
Ela tomando remédinho natural para dor nas costas

Cena 7:
Rosilene fazendo um lanchinho: comendo uma frutinha.

Cena 8
Tomando um remedinho natural para tendinite.

Cena 9:
Carregando projetos prá lá e prá cá.

Cena 10:
Tomando um remedinho natural....

Cena 11:
Conversando com a chefe com uma expressão de confessionário.
A chefe escuta o novo “probleminha de saúde” com uma paciência oriental.

Cena 12:
Tomando um remedinho natural

Cena 13
Encomendando por telefone, um vidrinho de remedinho natural que vai acabar e ela não vive sem ele....

Cena 14
Rosilene voltando do banheiro e falando:
- Até manhã, témanhã, témanhã.... tchau, tchau, tchau....E sai correndo para pegar carona.....

Leticia 24/09/2002

20 - A moça na janela

Ela é a moça da janela, a moça que pita um cigarro na janela só pra ver o tempo passar.Depois do seu cafezinho, acende o seu cigarrinho e fica ali, com o olhar perdido entre os galhos das árvores frondosas e o prédio da matemática.
Entre uma tragada e outra, admira o entulho cair do telhado da FAU. Entre uma baforada e outra, admira os carros estacionados, estudantes passando lá embaixo, a poeira levantando, entrando através da janela e sujando toda a sua sala.
Como num quadro do Almeida Júnior, ela nos lembra como era bom ficar na janela pitando e jogando conversa fora.
Antigamente toda moça da janela queria arrumar um namorado, ver o movimento da rua ou ver a banda passar; se já tinha passado dos trinta, estava na janela para tomar conta da outra moça da janela que estava lá para arrumar um namorado ou ver um elefante do circo passar.
Mas a nossa Rita da Fita já deve ter namorado e continua namorando muito nessa vida e está na janela só para se entupir de nicotina e fumacinha e ver o lixo passar.
Sempre sorrindo, sempre simpática a Rita com seus lisos cabelos presos na fita, passa pela biblioteca com seu passo arroxadinho e rebolante dentro da calça jeans apertadinha, que faz chequi-chequi, em cima do seu salto plataforma, com seu decote ousado e provocante de causar inveja a qualquer garota de Ipanema. É a coisa mais linda que os alunos da FAU já viram passar.
A Rita da Fita também é do samba, não perde uma festa na faixa. Toda noite a cabrocha desabrocha tresloucada riscando todo salão, sua a blusinha justa, dá um show de arrepiar os cabelos das moças de Santana.
E no dia seguinte, ninguém diz que a Rita está trabalhando feito um zumbi de tanto sono da noite não dormida.
Mas um dia a Rita não veio trabalhar. A moça não apareceu na janela, as árvores ficaram tristes, o entulho não caiu, ninguém passou lá embaixo, o estacionamento ficou vazio. Tudo ficou parado à espera da moça do quadro do Almeida Júnior. Era domingo, ora pois!
Letícia 3/10/2002

21 - MONY! Me proteja, amém

- Eu já disse, tô fora!
- Tá fora nada, todos já ganharam as suas crônicas e aventuras, porque você a rainha hilária- Clinton ficaria de fora? Nananina não! Sei que corro um sério risco de vida, mas sou ariana e adoro mexer com fogo, principalmente se fôr de uma sargitária.
É ruim, hein? Imagine se não vou contar o que vi e vivi ao seu lado?
Certo dia de sol, chuva, calor e frio paulistano, cheguei à biblioteca, mais especificamente à minha mesa e vi a Rejane confabulando com a sua querida caveira:
- To be or not to be bibliotecária? That’s the question. Meu querido pepê, (apelido do seu Santo Expedito) preciso de grana!
Assisti àquela cena mas não dei um pio, me finji de morta, que não vi e nem escutei nada, afinal, para se falar com a Rejane, antes precisamos saber qual é a fase da lua em que se encontra, que são as seguintes:
Lua cheia: quando está de saco cheio de todo mundo, não olha pra sua cara e nem ao menos lhe diz bom dia.
Lua minguante: quando ela te diz oi, pela manhã.
Lua crescente: quando dá bom dia e durante o dia fala apenas o necessário.
Lua nova: quando dá bom dia, fala um pouco mais, te convida para um café e pode até fazer uma piada com você.
Neste dia percebi logo que era a fase da lua cheia:
Dei-lhe um bom dia e ela respondeu hum, observem que é apenas um “hum” e não “hum, hum”, ou seja dois “huns” . Em seguida arrumou a mesa e no seu passo apressadinho e apertadinho se mandou para o acervo.
Mas eu precisava falar com ela e fiquei matutando como chegar sem levar uma chamuscada. Chamo-a de Re? Reja? Ou Rejane? É melhor o nome certo... bom até aqui tudo bem, e depois? Como falar o que tenho a dizer? Ai meu Deus! Ô Santo Expedito me ajude! O dia foi passando e eu ficando com aquilo na garganta.
À tarde, convidou a Célia para tomar um café, chamou o Rodison de Rodi, a Mônica de Monyy, Edla de Edlaaa, Vila de Vilaaa, assim com a última sílaba acentuada, percebi então, que já estava mudando de fase, indo para a lua nova. Suspirei fundo e tomei coragem, imprimi esta crônica e entreguei a ela.
Agora só me resta rezar a todos os santos para não sair daqui, chamuscada, triturada, massacrada.
- Monyyyyy!!! Me proteja!


Letícia 7/10/2002

24 - Mistério de Lótus

Calma como Krishna, zen feito Buda, esotérica mas não histérica.
Antes de começar o dia, abre o seu livrinho e lê o pensamento do dia e só então, engata a primeira: levanta e vai guardar livros, atividade que, segundo a Célia Zen-Indu, é uma ótima ginástica para os braços e a região do peitoral além de ser uma excelente terapia.
Silenciosa, misteriosa e discretíssima, sabe-se lá o que se passa debaixo dos caracóis dos seus cabelos! Será que fica pensando o quanto a vida é bela? Ou que tudo está uma bela merda? Não. A Célia Zen-Indu, dentro dos seus vaporosos vestidos, vestidinhos e vestidões indianos, não chega a ser uma Poliana, mas não pensaria numa coisas dessas. A vida é uma merda só para os pobres mortais privados do contato com o além: o além-mar, além-terra, além-céu.
Hoje o seu estilo é zen, mas tem cara que já foi da pá virada. Em cada fase da sua vida deve ter sido hippie, punk, cult, patricinha ou bicho-grilo. Fez loucuras na juventude que até Deus duvida, mas agora entoa o Om (coisas de Zen-Budista), acende incenso, lê tarô, estuda astrologia, cromoterapia, Feng-shui, Yoga, Florais e medita em posição de Lótus.
Para mim a Célia Zen-Indu é um mistério, como o Mistério de Lótus, que eu também não sei o que é e por esta razão esta crônica vai ficar assim, curtinha, pois não sei o que falar do seu misterioso silêncio.
Quem sabe se eu meditasse, acendesse um incenso, guardasse livros, lesse as cartas de tarô ou o que está escrito nas estrelas? Quem sabe assim eu poderia dialogar com o seu silencio, poderia entender o mistério.
A única coisa que tenho certeza é que ficar muito tempo na posição de Lótus, doem as pernas.

Posição de Lótus: sentada de pernas cruzadas, mãos sobre os joelhos, polegar unido ao indicador. Faz-se isso para isolar-se do mundo, senão fisicamente, pelo menos em pensamento e conseguindo a proeza de praticamente em nada pensar.
Letícia 4/10/2002

25 - A economia da loira

Edla, linda e chiquérrima em seus modelitos rosinha, verde-água, azul clarinho, sapatinhos coloridos e bicos finíssimos. Mãos delicadas e reluzentes de tanto ouro.
Fala mansa, gestos contidos, nunca perde a classe quando contrariada, enfim, a lady do Butantã. Não! não é das cobras que estou falando é do bairro, e qual é a mulher que não solta um veneninho???
Ótima economista, se ela acha que a assinatura de uma revista é cara não compra e c’est fini.
Certa vez um professor doutor, provavelmente diretor de alguma coisa e presidente de alguma comissão, qual professor não é isso tudo? Encasquetou que queria uma assinatura de uma revista caríssima e carrérima para a biblioteca.
A Edla com toda a calma, loirisse e boa educação que Deus e a mamãe lhe deram, tentou persuadir o doutor que era im-pos-sí-vel assinar. Mas ele teimava que aquele título era importante e ela respondeu:
- Não assino.
Ele: -assina.
Edla : - Não assino.
- Assina.
- Não assino.
- Assina!
- Não assino, não assino e não assino e c’est fini!
O doutor babou, mas teve que ceder aos encantos da loiríssima-inteligentíssima e educadíssima bibliotecária-madame.
“Tá pensando o quê? Até o Praaaadoo anda na linha, que dirá um reles doutor!”
- Vou fazer pipoca!
Obs: esse é o único problema da nossa colega, quando inventa de fazer pipoca no microondas da biblioteca, o alarme dispara, aueis! (Always)

Letícia 23/09/2002

26 - Ira (não é pecado)

Iracema, jovem avó do samba, sirigaita magra de dar inveja a qualquer Gisele, falava pelos cotovelos que nem a Emília do Sítio tinha vez.
Mas coitada, boa pessoa, gente fina, era responsável pelo café da biblioteca. Na verdade, só percebíamos sua falta quando, por motivos justos! (um porre da gafieira que ela foi antes de ontem) não comparecia ao trabalho.
Bom era quando a Ira não irada perdia a voz, conseqüência da cervejinha gelada da sexta-feira e do sereno do domingo, quando de fato, dormia para recompor as suas energias.
Mas a Iracema não cuidava só do café, nããoooo, também tinha de cuidar dos slides, atender atenciosamente aos professores e o melhor de tudo: guardar livros. Esta última tarefa era a que mais gostava, enquanto carregava livro pra cá e pra lá, conversava com eles.
Primeiro olhava a classificação: 724.981 Ar78... e pensava:
- Huummm, senhor Artigas, acho que vou colocá-lo nesta estante, não, é melhor colocar do lado do Niemeyer, assim vocês podem trocar figurinhas. E pof, ficava o A misturado com o N.
- Senhor Rino Levy....deixe-me ver...que tal ficar com o Lloyd? Ele é legal, gente fina mesmo. E pof!
- Ah, ha! Meu querido Othake ! Hoje você vai ficar aí no carrinho. Não estou legal, sei lá..., num tô afins...acho que vou parar por aqui.
E assim a Ira zanzava entre as estantes guardando livros, conversando com os arquitetos até a hora de tomar o café.
Numa quarta-feira de muito frio, uma bibliotecária bisbilhoteira, intrometida resolveu buscar o café. Foi na copa, lavou as garrafas térmicas, três! Pode uma coisa dessas? E quando estava saindo da biblioteca, deu de cara com a Iracema.
A bibliotecária gelou, mas com um ar de superior disse:
- Vou buscar o café, estou louquinha para fumar umzinho.
Iracema, na sua boa paz, respondeu:
- Que ótimo! Agora toda quarta posso chegar atrasada e o meu cargo de cafetina fica para você!
A partir deste dia, o que Cristo passou era fichinha diante da penúria da bibliotecária intrometida. Iracema crucificou-a, carimbou-a, slidou-a, scaneou-a para sempre a cafetina das quarta-feiras.
Haja samba no pé!

Letícia 18/09/2002

28 - COMPANHEIRA GATA

Para ela, companheiro é companheiro, companheira é companheira, greve é greve e se for geral, melhor ainda.
Foi numa dessas greves na USP, em que pedíamos 101% de aumento - até aquele momento não entendia o porquê do 1% - que conheci a Regina e se revelou uma grande companheira.
Fazia piquete todos os dias, às 5 h. da manhã já estava na porta da Reitoria e não deixava nem o Reitor entrar. Pequenininha e arisca como uma gata, também pudera, com 10 gatos em sua casa, miando com eles todos os dias, acabou ficam igual e aprendendo todas as artimanhas de um miau bem miado.
Diziam até que ela tinha 7 vidas, conclui que era verdade depois que a vi peitando o Magnífico Reitor e conclamando a todos por um salário decente:
Na portaria ela gritava no megafone:
- Companheiros! A luta continua!!. Você aí parado também é explorado!
Lá pelo centésimo dia de greve, o Reitor chegou e viu aquele barraco na porta do seu gabinete, bufou um bafo de alho na cabeça da Regina e ela miou. Tentou ultrapassá-la e ela eriçou o corpo, arrepiou os pelos feito uma gata pronta para o ataque. Soltou um rugido de leão e ela chiou um miau – chissssiiiiiiii ..... e por pouco não pulou no pescoço para esfolar aquela pele branquinha do patrão.
Nós, companheiros e companheiras continuávamos ali, firme ao seu lado, tremendo e temendo com o que poderia acontecer.
Mas, quando chegou um segurança e a gatinha oriental arisca sentiu o cheiro de cachorro, pensou:
- Epa! Sujou! Tô fora.
Apelando para os seus conhecimentos animalescos e orientais, a nossa companheira gata passou por baixo das pernas do Magnífico, correu, zarpou e num salto malabarístico gatuno e kung-funiano foi parar num galho de uma árvore. Mas sem se intimidar com aquela cachorrada, continuou a gritar:
- Companheiros, a luta continua! Você aí embaixo também é explorado... É 101, ôba! É 101, ôba!
Ficamos de olhos arregalados e perdidos com aquela recuada da nossa gata-samurai-companheira e recuamos também.
Assim o Reitor pode entrar em seu gabinete e lá do alto da sua magnificiência nos concedeu 1% de aumento.
Os 100% que a companheirada pedia, ignorou solenemente.
Foi aí que entendi porque pedíamos 101%, pelo menos, recebemos o último dígito.
Toda forma de greve é valida, companheirada

20/09/2002

30 - A conselheira

Araci, a senhora florida do balcão de empréstimo.
Com as suas mãos finas e brancas adora crochetar lindos barrados em panos de pratos e obviamente, vendê-los.
Ótima confidente e conselheira, escuta a todos e com a sabedoria que a idade lhe proporciona e dá valiosos conselhos! Principalmente se for sobre sexo. São conselhos simples e diretos, mas que apazigua os corações sofridos desta biblioteca.
É sempre na hora do café que ela exerce a arte do aconselhamento
Transcreverei aqui, alguns diálogos que já pesquei de orelhada, enquanto tomo também o meu café. Confesso que alguns também me serviram.

- Araci, não sei mais o que fazer? O meu marido me procura todos os dias. Ele só pensa naquilo, eu não agüento mais! Tem dias que digo que estou com dor de cabeça ou vou dormir mais cedo. Mas aí, no dia seguinte, ele acorda feito furacão. O que faço?

- Minha filha... tem que dar... Este mundo tá cheio de mulher sobrando querendo dar e se você não o satisfizer ele procura outra. Casamento é assim, amizade, companheirismo e sexo.

Outra pessoa pedindo conselhos:

- Ah! Como está difícil arrumar namorado! Se a coisa continuar assim, vou virar freira!
- Que freira que nada! Vai menina, se arruma, sai pra rua, vai passear bastante, vai paquerar. A vida sem sexo não é vida!

Depois foi um rapaz:

- Não sei mais o que fazer para ela olhar para mim! Já fiz de tudo, mandei flores, cartões, me declarei, mas ela não quer saber de mim. Estou sofrendo muito....
- Meu caro amigo, se ela não liga pra você, chute o balde! Desencana, vai procurar outra. Tem tantas meninas por aí solteríssimas e você aí, chorando por causa de uma sirigaita quem nem te dá bola. Arre!

E assim é a Araci, uma viúva alegre, florida, conselheira de sexo e relacionamentos amorosos, leitora voraz da Bíblia e crocheteira.

Podem encomendar um paninho de prato que eu garanto.


Leticia 5/10/2002