quarta-feira, 12 de março de 2008

12 - Homenagem ao meu Rei.

Estou deveras triste, pois o meu rei, o meu muso, a minha fonte de inspiração, o Rodi se vai. Vai nos deixar e agora? quem vai encher o meu carrinho de livros, que quando estou prestes a esvaziá-lo, vem e diz:
- Ó, estes são compras.
- Estes têm produção científica.
- Estes estão pedindo com urgência.
- Este, não cabe no armário.....
E assim por diante, sempre com uma desculpa para encher o meu saco, ops, o carrinho. Mas às vezes o meu rei é um doce, me trás, junto com uns livrinhos, um bombom para adoçar a minha vida...
Mas só ás vezes!!!

Pois é, aquele baianinho que um dia largou o sol e a vida lenta de Salvador e veio de mala, cuia e papagaio, para tentar a sorte na apressada São Paulo, se deu bem, de tombador de livros virou um mestre filósofo ou será um filósofo mestre? Sei lá, pergunta pra ele.
Trabalhou por anos numa biblioteca obviamente cheia de mulheres, feito um paxá no seu harém, ainda que este harém não fosse lá essas coisas.

E foi nos primeiros dias de janeiro de 2006, ano do cachorro! que o Rodison chegou para a Emily e disse:
- Emily, ó, assim.. é que, então, eu fiz um concurso para professor...
- Que?! Peraí – arrumou a mesa, fechou todas as janelas do windows, desligou o celular, olhou para aquele ser pensante que a aguardava e disse: - Pode falar.
- Então, como eu estava falando, prestei um concurso ...
- Como? Concurso? De quê?
- Con-cur-so para ser pro-fes-sor no Es-ta-do...- falou meu rei, pau-sa-da-men-te tentando ser o mais suave possível com sua chefe, mas não adiantou muito.
- Mas então você vai nos deixar? Vai pedir demissão, peraí a gente pode ver com a Eliana, ou no DP, ou com o diretor, ou na Reitoria, para não perder o seu FGTS!

Com toda a paciência e a pressa baiana que Deus lhe deu, ele continua:
- É o que estou tentando lhe dizer...e...

Emily se agita, levanta da cadeira e solta um Ai Meu Deus! Não posso ficar sem você!
- Quem vai tombar? Quem vai destombar? Quem vai te substituir? Quem vai me agüentar? Quem vai controlar as compras? Quem vai preencher os pedidos? Quem vai atender o telefone? Quem? Quem? Quem vai?

E continuava agitada, anda pra lá e pra cá, toma um copo d´água, chama a Eliana:

- Eliana! O Rodison vai embora!
- Edla! o Rodison vai ser professor!
- O Rodison vai nos deixar!
- E agora Rodison? Como é que vai ser?

Estava para ter uma síncope cardíaca, um piti dos bons, então, ele suspira um suspiro profundo e diz:

- Diante de tantas perguntas as quais não sei se vou poder responder, assim, então, você Emily, tem que entender. As coisas mudam, a vida muda, as pessoas mudam e eu, não sei, é a vida. Um dia a gente está aqui, noutro ali, qualquer ser pensante é dialético e eu sou um ser pensante. Penso, logo existo e eu existo, sabe? estou aqui, Emily.... em carne e osso, ao vivo e a cores, sabe? assim, então, quero dizer, que todo este tempo que trabalhei aqui foi ótimo (frisando bem o óóó) as pessoas são ótimas, trabalhar com livros é ótimo, mas a minha vida está mudando, eu estou mudando, as coisas mudam. Veja bem, durante anos a minha aparência foi mudando, eu tinha cabelo, por exemplo, no meu interior agora sei nadar, mudei de casa e agora vou mudar de emprego. Então, assim. Ta.

Parou um pouco para respirar. A Edla só foi capaz de responder : É tudo muda....e continuou lendo o email da filha dos Estados Unidos, que mandou uma nova foto da Sofia.
A Emily continuava sem som. A Célia sem palavras, a Eliana bebendo água, a Vila atendendo ao telefone e a Regina sorriu e disse: É isso aí companheiro!

Meu rei olhou para o relógio:
- Então gente, vou tomar café.

E se foi deixando o seu pequeno harém boquiaberto com as suas profundas palavras.
E eu só fico aqui pensando, quem é que vai por ordem naquelas malditas doações.

Ah! Meu rei! Me deixe não.

Letícia 30/01/2006

13 - O dia que a Let’s pirou ou piorou

Era uma vez uma Let’s tranqüila que trabalhava no seu mundinho de processamento de uma famosa biblioteca. Classificava os livros que queria, do jeito que queria. Inventava mais trabalho para ela e também para outros setores.
E assim caminhou a sua humanidade por cinco aprazíveis anos.
Mas eis que um dia uma superbibliotecária veio convidá-la para mudar de setor, (para substituir outra super), sabe aquele Puf de rodinhas? É, foi ela quem a convidou! propôs novos trabalhos, novos desafios, uma nova era na sua vida-besta. Os olhinhos da Let’s brilharam! E ela pensou, pensou, pensou: era um novo desafio, vou ou não vou, eis a questão!
Ela foi.
No começo tudo parecia um paraíso, a Neusa foi ensinando, a Rosilene dando as dicas, a Ira rindo.... No início, o rítmo de trabalho era nem lento e nem super-rápido, era quase rápido, porém a Let’s foi agüentando o tranco e achando que a vida era aquela beleza....
Mas como nem tudo são flores e nem paraíso, o povo do setor de projetos começou a mostrar a sua cara. Começaram pisar fundo no acelerador e a rodinha zuuummm ia pra lá e pra cá e a Let’s foi entrando no furacão, vulgo Puf roxo, rodando no centro do tornado, em meio a tempestades de usuários, projetos, cds, vídeos, mapas e tudo o que havia ali. Os cabelos começaram a arrepiar.
E a Neusa com aquele jeitinho manso de falarbaixinhorapidinhoquemonitornão
podeveremailvocênãopodenavegartemquetrabalhartemquechegarnahoratemquesercompetentetemquefazerexposiçãoindexarprojetovideocdmapafotografiaosaltofazendotoctoctocmontacdhomepage-respira-tomaáguacafécháfazxixivoltapramesanãorespiraatendedesaprende
stresspira - respirafundo- e BUM!
A Let’s pifou!
A Rosilene correu para acudir, abanava, trouxe um remedinho:
- Ira ajuda aqui...
Ira rindo: - Ajuda aqui, hehehe.
- Levanta um pouco a cabeça.
- Levanta a cabeça, hehehe, a Valéria já fez isso comigo....
Não pode continuar, pois a chegada das três Marias causou um alvoroço, a Mony-Maria foi logo gritando:
- Vocês estão loucas?! Não mexe no corpo, ninguém mexe até o bombeiro chegar.
Edla-Maria dá um palpite:
- Deve ser a escoliose ou a lordose mas parece mais esclerose, isso aconteceu com uma amiga minha.
- O quê? O que você disse?
A Edla vai abrir a boca para explicar o acontecido para Emily-Maria, mas é interrompida:
- Peraí, deixar eu aumentar o volume do meu aparelho.
- EMILY! A LET´S PIFOU.
- Quê? Peraí, ainda não sintonizei direito, quem fez isso com ela?
A Mony bufa, a Edla desiste de explicar e vai para a copa preparar um chazinho rosa, neste momento a Satiko entra na copa e pergunta:
- Huuummm, o que você está fazendo.
- Um chá rosa pra Let´s que pifou.
- Chá? Huuummm. Olha a caixinha, cheira, põe o óculos e vê o preço!
Cruzes você pagou tudo isso? Lá em Atibaia tem chá rosa, verde, amarelo, azul, todas as cores, bem baratinho...
E a Let´s continua lá, estatelada no chão esperando socorro. Os outros colegas de trabalho estão voltando do almoço e aos poucos vão se aglomerando em volta daquele corpo largado e arrepiado no chão amarelo-frio.
A Lisely tem um choque ao adentrar pela porta de vidro e deparar-se com a cena inusitada, solta sua voz de menina-direita-de-colegial-de-alguma-Nossa Senhora:
- Coitada, como vocês a deixam assim? Agacha e arruma a roupa, escova os cabelos arrepiados
- Pronto agora sim, pode chamar o bombeiro.
A Célia pega um almofadão estampado, não o Puf é claro, acende um incenso, senta ao lado do corpo e começa um ritual reikeano energizante.
- Deus manda fazer sexo só para procriar, mas acho que o caso dela é urgente pra relaxar, aconselha a conselheira irmã Araci.
- Que sexo nada! Se ela tivesse três gatos, quatro cachorrinhos, cinco peixes, um papagaio, umas tartarugas e fizesse piquete não estava aí estatelada. Resmungou a Regina.
Da janela a Rita grita: Ô Let´s vem fumar um cigarrinho aqui na janela, que esse piti passa!
Mas o Rodison não se conforma:
- Ah, se fosse comigo... eu nem deixava isso acontecer, porque as coisas não são assim, tem muita coisa fora de lugar na minha mesa, na minha casa, na minha cabeça, mas sabe, sei lá, isso é uma absurdo!
A Eliana ao passar pelo Projeto em direção à copa, vê aquele tumulto e pergunta: o que acontece? A Rosilene tenta explicar, a Ira ri, todos falam ao mesmo tempo, mas a Mony põe um ponto final falando mais alto e resume a história dizendo que o bombeiro logo chegará.
- Bom já que está tudo resolvido, je suis desolée, e como aqui não é lugar para tumulto, dispersem, deixem as duas resolverem o problema. Elas que se entendam.
E dirige-se para a copa acompanhada da Vila, que também arrisca mais um palpite para a situação:
- Acho que ela precisa comprar um produto da Avon ou da Natura, pode ser também um calcinha. Qualquer coisa, contanto que compre.
A Dina não viu nada porque ainda não chegou, a Rejane não se interessa pelo tumulto porque já sobrevive num, oito horas por dia.
Mas eis que chega a causadora do piti da Let´s, a chefe supersônica-atômica-Neusa. Entra calmamente na sala, guarda a bolsa, engata a primeira,a segunda pula pra quinta e atendeumalunofalacomaRosileneemprestaumCDescaneiaumafotoolhaaquilonochão e cai na gargalhada:
- Coitada! A Let´s pifou e o trabalho nem começou!
Aquele corpo estatelado, arrepiado, estendido no chão, que pensava em levantar-se, ao escutar as palavras sábias do conhecimento milenar japonês, achou melhor não arriscar mexer nem os cílios, era mais prudente esperar pelo o bombeiro.
Quem sabe ele a tirava daquela enrascada e valesse a pena a troca.
Mas ainda falta um personagem!
Prof. Katinsky chega beijando todo mundo e dando as alfinetadas;
- Ah, ha! Ninguém está trabalhando, tá todo mundo aqui conversando.
Mas antes que alguém lhe dê uma resposta ele emenda:
- Tem café? Tem bolo?
Alguém responde:
- Tem professor, o bombeiro chegou, a Let’s melhorou e vamos festejar.


Letícia 30/8/2005

14 -Vocabulário descontrolado [versão 2.1.]

(atualizada a pedido do termo geral, i.e., Vânia)

Vânia, termo relacionado a João que é relacionado ao Computador.
Termos específicos: Bia e Renan.
Bia, termo relacionado de Renan e específico da Vânia e João.
Renan, específico da Vânia e João, relacionado com a Bia.
Vânia: usada para trocar fraldas, buscar filho na escola, fazer compras no Macro, organizar festa dos filhos, distribuir convites, montar um vocabulário, pegar no pé da Iracema (a mão não pode porque está ocupada com as garrafas térmicas), em casos específicos e de urgência, pode também ser usada para substituir a diretoria.
Vânia, mestre em terminologia*, ciência que coloca palavras numa ordem estranha, hierarquizada numa tal árvore, i.e. uma palavra debaixo da outra, relacionada com outras, específicas ou gerais de outras, com definições quando for preciso.
Vânia, que deixou muita bibliotecária de cabelo em pé para fazer um tal vocabulário controlado, ou seja, colocar um montão de palavras e/ou termos numa árvore terminológica**, i.e., aquilo que expliquei anteriormente.
Let’s, relacionada com ninguém, geral da Sofia. Termo descontrolado que está tentando explicar terminológica e semioticamente o termo proposto no início do texto, ou seja, isto é, a Vânia, mas como ultimamente anda sem fundamentos informacionais, acha que o texto acima tá bom demais e terminará o assim:
CQD (como queríamos demonstrar)
É o fim!


Letícia 23/09/2002
* leia-se: Mestre em Análise Documentária
** leia-se: Árvore hierárquica

15 - Super Vila contra o malvado Mario Bross

Era uma vez a Vila (e o Betinho também). Não se pode falar de um sem falar do outro.
Vila-e-Betinho, Betinho-e-Vila, dois em um, um em dois, vice-versa ou versa-vice, dá no mesmo. Mãe e filho, filho e mãe. Tão silencioso que às vezes, nem percebemos que os dois estão na sala. Por acaso, você já escutou o Betinho falando bom dia? Ou mesmo a voz dele? Eu também não.
Foi numa dessas manhãs frias de primavera-inverno-verão paulistano, que escutamos um GLUF, POF! Um barulho de alguma coisa engolindo alguma outra coisa, mas não demos bola, e os micros travaram, até aqui, tudo normal.
Eu, impaciente, apertei o botão e pof, desliguei e religuei o micro na marra, Mony passou um anti-vírus, Emily afoita só perguntava:
- Gente! O que estava acontecendo? Olha aí o meu micro travou de novo!
O Rodison na sua baianice, foi dar uma voltinha, Edla só falava: geeenteee, maaais ooo queeee eestáá acoonteceeendooo??? E foi tomar um chazinho vermelinho
A Rejane deu um grito! Vila! Ô Vila! Cadê a Vila? E andando depressinha no seu passo apertadinho correu toda a biblioteca a procura da Vila e nada.
Foi aí que todos deram por falta da Vila e do Betinho ou Betinho e Vila? Tanto faz a ordem, pois não altera o produto.
A Vânia, que estava passando pela sala, parou, pôs as mãos nos bolsos da calça e falou na maior tranqüilidade. Vocês já perceberam que toda bibliotecária daqui é tranqüila?
- A Vila está dentro do micro! Olha ela lá! Está dando tiro no super Mario para salvar o Betinho.
Todos correram para frente da tela do super-avião-micro da Mony e foi um auê:
- Olha ela lá!
- Sai daí, Vila!
E lá ia a Vila pulando foguinhos, atirando em monstrinhos, ganhando e perdendo vidas, saltando pontes, correndo de espadas, facas e mais monstros.
(Um parêntese: para dar mais emoção, vocês leitores, imaginem em suas cabeças ou ouvidos aquela musiquinha chata de todo joguinho: tchun, tchun, tchun. Os mais velhos, que não conhecem essas musiquinhas lembrem-se da música do Canal 100, parará pá pá pá, pá, parará pá pá pá pá... que tá bom demais!. Fecha parênteses.)
Aí começamos a torcer pela Vila:
- Sobe! Desce! Não, não, mais para a direita, agora vira, para a esquerda! Esquerda, nããooo!
- Xiii, perdeu vida...
- Vai de novo, olha o monstro atrás!
Mas tínhamos que abreviar esta aventura, ajudá-la a salvar o Betinho e terminar esta estória logo! Mas como faríamos? Ninguém ali era bom nesses malditos jogos e corríamos o risco de matar a Vila antes do tempo.
Tínhamos que matar todos os monstrinhos de uma vez só. A Vila, pra lá de cansada, veio até a tela do micro, botou o carão na super tela do avião-micro e gritou:
- Só há uma maneira de vencer a todos, coloquem uma música mais insuportável que esta que está tocando.
Música? Mas qual? A Emily sugeriu Bethoveen, o Rodison a Betânia, a Lisely uma valsa, a Dina um pagode e assim ficamos discutindo qual seria a melhor ou pior música que a de um jogo de computador. Mas a Ira, santa Ira! Apareceu com o Cd É o Tchan. (disse que era da neta....huumm, sei não...) Foi uma gritaria e entusiasmo geral, salva de palmas, batidinhas nas costas da Ira, etc e tal...
Mony, mais que depressa colocou o Cd no seu super-avião-micro.
Nem monstrinho agüenta!
“Segura o tchan, amarra o tchan e tchan, tchan, tchan....”
Todos os monstros estatelaram-se no chão, as pontes pararam de se mexer, os jacarés serviram de pedras para saltar nos rios e a Vila pode chegar ao fim e salvar o Betinho das amarras do Super Mario Bross!
Os dois saíram de lá de dentro do micro, meio sujos e cansados, porém felizes.
(Acho que o Betinho levou uma bronca,mãe é mãe, né?)
E Ueba!!! Isso merece um bolinho com café e chazinho vermelinho.

Leticia 24/09/2002

16 -Chá das cinco

Estamos em algum lugar do passado misturado com o futuro.
Eram 5 horas da tarde, uma linda mesa havia sido posta para servir o chá das 5. Sobre a toalha de linho branco, estavam as pratarias e o jogo de louças inglesas para servir o chá de jasmim, docinhos, bolinhos e camafeus. A futura diretora da biblioteca estava recebendo alguns ilustres convidados em sua casa, como por exemplo, um tal de Artigas, o Ramos de Azevedo, Raminho para os amigos, uma moça Lina, o Oscar e o jovem Othake.
Entre uma mordida e outra, um gole e outro, a nossa anfitriã soltou o verbo:
- Meu caro Artigas, já que o senhor ainda está desenhando a futura sede da Faculdade de Arquitetura, gostaria de dar umas opiniões, afinal em 2002, estarei como diretora da biblioteca e precisamos discutir alguns pontos....
Mas ela foi interrompida pelo amigo comunista, Oscar:
- Ao meu ver, está faltando um pouco de irracionalidade e imaginação, por exemplo, umas curvas femininas, uns peitinhos, umas ancas...
- Bah! Replicou Raminho. E o anfiteatro? O que você pretende com aquilo? Mais parece um porão!
O senhor Artigas não se conteve:
- E o seu teatro? da platéia não se enxerga nada! Quer coisa pior...
- Para mim está faltando uma cor, que tal um roxo ou lilás? E o nome da Faculdade em neón! Ficaria bárbaro - sugeriu o japonezinho Othake.
- Peraí gente, reclamou a bibliotecária, também loira e possivelmente econômica, estamos aqui para discutir coisas práticas e não as curvas e cores. E voltando-se para o autor do projeto: quero te avisar, pense bem como farás o banheiro para funcionário, pois sei o muquifo que será, um horror!
- Minha cara futura diretora, antes de mais nada, podes me passar os petit-fours? E continuou: agradeço os palpites, mas a minha intenção neste prédio é que qualquer tipo de manifestação seja ouvida em todos os cantos, qualquer som, qualquer palavra...
- Sim! A amplidão da liberdade! interrompeu Oscarzinho.
- Um vão mais que livre. - pensou a senhora Lina.
- Quero lembrar também que o prédio não oferecerá nenhum conforto térmico, aliás será uma enorme geladeira e nos obrigará a usar luvas de dedos de fora para trabalhar. A gente fica parecendo mendigo de filme europeu, outro horror!
Os convidados arregalaram os olhos! E Ela continuou:
- E tem mais, acho bom o senhor aumentar a área da biblioteca, afinal todos os projetos que vocês farão eu terei que dar conta da preservação, principalmente o seu, meu querido amigo Ramos.
- Mas o projeto já está pronto! E foi aprovado em todas as instâncias, não posso mudar mais nada.
- Então mude o sol de lugar, sugeriu Othake com um riso irônico.
Acontece que todas aquelas opiniões já estavam deixando o Senhor Artigas nervoso, ele pediu licença para ir ao banheiro e durante este período os outros convidados continuaram a confabular, criticar e a fazer tititi. Ao retornar o Artigas pediu silencio:
- Meus caros amigos, enquanto estive fazendo as minhas necessidades, cheguei a seguinte conclusão: vou inverter o prédio, assim o sol incidirá na biblioteca, pensarei num banheiro decente, na fachada colocarei uma escultura em néon cheia de curvas. Então até logo que tenho muito a fazer.


Se este encontro memorável aconteceu ninguém sabe.
Se aconteceu, o arquiteto não acatou nenhuma sugestão.
Se não aconteceu, teria sido bom se tivesse acontecido. Deu pra entender?

Letícia 1/10/2002

17 - Descartando setembro

Não era 11 de setembro, mas era setembro..... Primavera? Dia quente de sol? Chuva? Sei lá meu! Não lembro como estava o tempo lá fora, só lembro que aqui dentro, o tempo estava fervendo!
Quando cheguei na biblioteca ela já estava trabalhando. É óbvio que já estava lá, pois sempre chego depois...
Com toda a sua aflição, fazia tudo ao mesmo tempo: atendia aos telefonemas, reclamava do micro que não funcionava, falava com as colegas de trabalho, selecionava e descartava os livros... huuummm...acho que foi isso que a fez ter um piti.
Aquela manhã de setembro, nenhuma torre caiu, nenhum Carandiru foi inaugurado, nenhuma multidão foi assassinada, somente um colega desapareceu misteriosamente.
A Emily estava nos dias, no dia do descarte e nós sabemos que ela é um arraso nesta arte e como!
Logo cedo a Emily se pôs a executar a tarefa: pegava um livro, abria, via a ficha de empréstimo e pensava: - esse livro nunca saiu, descarte.
- Esse aqui saiu só em 1996... e este então? Em 88!
E ZAP! Como o Zorro que passava a espada no estômago dos inimigos, a Emily passava a espada do descarte nas estantes.
- Descarte, descarte, descarte.
E o Rodison, como o heróico Sancho Pança, foi obedecendo à suas ordens e separando os livros.
O dia foi passando e a gente começou achar que ela estava exagerando, mas ninguém tinha a ousadia de falar que não era preciso limpar o acervo daquele jeito.
E a Emily na empolgação foi descartando, foi descartando... ao final do dia 80% do acervo estava no chão para doar à alguma biblioteca.
- Ufa! Missão comprida. Rodison! Pode levar tudo lá para dentro para descartar...
Mas ele não respondeu.
- Rodison! Rodison? Cadê vocêêê???? Gente o Rodison sumiu!
Foi uma polvorosa, cadê o Rodison? Onde ele se meteu? E todos nós começamos a chamá-lo, a procurá-lo, até que alguém ouviu um pedido de socorro lá loooonngeeee, bem baixinho...
- Socorroooo..................
Alguém gritou :
- Achei o Rodison! Ele está aqui no 711.4098611293827364!!!!! está embaixo de tudo!!
- A Emily descartou o Rodison!
- AAAhhhh, Emily, ele ainda serve pra alguma coisa...
Ela tentou se explicar:
- Gente! O Rodison não! Eu me enganei, ele fica, põe na estante de novo!
Tiramos o nosso querido baianinho dos escrombos livrescos, não era um Trade Center, mas chegava perto, diante da cara amassada e do corpo amarrotado do nosso heróico ajudante de descartes.
Nada como um café da Iracema para recuperar as energias do Rodison, afinal só ele não foi descartado, o resto foi....


Letícia 20/09/2002

18 - Sem Norte nem Sul (Katinsky)

Naquele dia ele não chegou com pressa. Deu bom dia, mas não deu o beijo e foi logo perguntando para a Regina:
- A Eliana está aí?
- Deve estar na sala dela.

Ele entrou na biblioteca e foi em direção a sala da Eliana, mas para chegar lá, tem que passar por várias pessoas. Disse apenas bom dia, não beijou ninguém e perguntou:
- Cadê a Dina?
- Deve estar na mesa dela, professor.

Fez meia volta e quando estava saindo da sala, encontrou a Vânia e perguntou:
- A Lisely já chegou?
- Já e deve estar na sala dela..

Neste momento a Eliana chegou:

- Bom dia, professor. A Regina me disse que o senhor estava me procurando e...
- Eu? Não.
- Ele está procurando a Dina, disse a Rejane.
- A Lisely, falou a Vânia.
- Quem? Eu? Procurando quem? Onde?

É, parecia que havia algo de estranho no ar. Naquela manhã o Katinsky não havia beijado ninguém e não doou nenhum xerox para Emily tombar.
Todas entreolharam-se com uma interrogação no rosto, perguntando uma a outra o que se passava. Mas a Rejane esperta notou que estava faltando alguma coisa no Katinsky

- Ô professor, acho que está faltando alguma coisa no senhor....
- O que? Faltando o que? Eu estou aqui, inteiro e...
- Huumm, deixe me ver...
- Não, não está faltando nada em mim.
- Já sei! A bússola, cadê a sua bússola professor?

Só então descobrimos o que estava faltando nele e porque usa a bússola dependurada no pescoço: sem ela ele fica totalmente desorientado.
Nesse momento a Regina veio ao nosso encontro trazendo a bússola e dizendo que alguém havia entregue no balcão de empréstimo.
Assim que a colocou no pescoço, tudo voltou ao normal: saiu distribuindo beijinhos e sacou um folheto do seu bolso, fez mais uma doação, pediu para a Rejane scanear alguma coisa, solicitou um xerox para a Dina e foi discutir a reforma da Fau Maranhão com a Eliana
.
Se demorasse mais um pouco para a bússola aparecer, era bem possível ele inventar um puf roxo de rodinhas, como uma nova cadeira do Katinsky.

Leticia 5/10/2002