quarta-feira, 12 de março de 2008

5 - Ériquinha! (Feliz aniversário)

- ÉRIQUINHA!
É assim que eu a cumprimento quando a encontro sentada no micro, digitando, digitando, com aquele negocinho no ouvido.ÉRIQUINHA! Boa tarde!, não sei porque ela se assusta? Dá um pulo na cadeira e diz: AI! Que susto! É um maior furdunço, só porque falo um pouco alto: É-RI-QUI-NHA!

Lógico que capricho no É da Érica. O diminutivo é um agrado que não sei se agrada, mas acho que combina com a meiguice de sua pessoa.
Mas tudo isso só acontece quando ela aparece, quando não tem trabalho da faculdade, quando está bem de saúde, quando o ônibus a deixa chegar, quando ela acorda cedo, quando, quando, quando, sei lá mil coisas..... É-ri-qui-nha é uma caixinha de surpresas. Todos os dias nos perguntamos:
- Será que ela vem?
E se não vem:
- Será que ela está doente?
Não faz muito tempo foi um auê, aqui no lado de cá da biblioteca. Nossa Ériquinha sumiu uma semana sem dar satisfação. A Célia, a Regina, a Mony, ligavam para o celular e caía na caixa postal, ligavam para a casa e ninguém atendia, ligavam para a mãe e necas de pitibiribas... Aí pensamos o pior:
- Tá no hospital entubada.
- Mas a mãe nos teria avisado.
- Foi seqüestrada.
- Será?
- Liga na ECA!
- Cruzes, nem tanto...
- Ah! Há! Descobri! – gritou a Regina – Ela não vem porque tem um monte de trabalho para fazer.
- Aaaaaaa boooommmm..... fizemos em coro. Mas bem que podia ter avisado, né?

Já avisei para a Ériquinha trocar de profissão, bibliotecária não tem futuro.
Já falei vai ter que agüentar us susuários chatos, vai ter que dar assunto e classificação pra livro que ninguém vai ler e depois vai destombar e descartar; vai ter que procurar livro que ninguém encontra; vai ter que descobrir se, aquele livro de capa colorida tamanho médio em inglês, é o que o professor jura que consultou um dia na sua vida. E mesmo assim, ela insiste em estudar biblioteconomia; pra mim, aquele negocinho no ouvido não a deixa escutar a voz da sabedoria!. Reclamou que só a avisei no último ano do curso, oras bolas, nunca é tarde para mudar.

- Ô ÉRIQUINHA! Eu tô avisando....Mas já que você insiste, persiste e não desiste, vamos comemorar o seu aniversário. Vamos ao bolo!

19/10/2007

6 - Customizando o puf

Lá se vão cinco anos desde que conheci o Puf Roxo e muita coisa mudou no mundo e na terra, que anda por demais aquecida e derretendo os nosso cérebros e nos obrigando a andar quase nus.
Há de convir que o modelito Puf Roxo é para inverno, e como a Neusa não está querendo transformar seu corpinho de Vênus-gueixa em molho shoyo, resolveu customizar o seu Puf Roxo.

Agora quando vou tomar café não vejo mais um alcochoado ambulante, mas uma cama-sexy-redonda-com-espelho-no-teto de salto quinze. O salto é para tornear as suas batatinhas das pernas morenas do sol do cepe.

Ela não contou o seu segredo, mas fazendo uma pesquisa em sites de moda e observando a mudança gradual da nossa colega, acho que encontrei a receita, que repasso a quem possa interessar (principalmente eu)

Receita da costumização:

- Espete o Puf para esvaziar tudo;
- Arranque as mangas;
- Uma bela tesourada no decote da frente e de trás até onde Deus permita;
- Sutiãs aos lixo!
- Joelhos, costas, ombros e colo sempre à vista;
- Ajuste o Puf o máximo que puder ao corpinho;
- Uma maquiagem definitiva;
- Um marido e/ou amante (sei lá, né) que compareça.

E enfim, a cama-sexy-redonda-com-espelho-no-teto, que treme, revira os olhos e suspira em meio aos slides, projetos e monitores está pronta para falar:

- MORRA DE INVEJA!.


07.03.2007

7- Zuleide

Não resisto, deve ser sina fazer da desgraça alheia o riso de alhures. A minha sina de falar dos outros em contos e crônicas já me colocou em maus lençóis e saias-justa, principalmente quando encomendam uma crônica, então vai esta que foi encomendada pela bruxinha Zuleide. Batizei-a com este nome, porque o que anda acontecendo nesta biblioteca só pode ser coisa de bruxinha chamada Zuleide.
Desculpe-me, não faço por mal, antes pelo riso e sorriso da Ira. É que há dias, numa noite caliente de vendaval nestes cantos de Sampa, assucedeu-se uma desgraça: a nossa amiga Luciene ao chegar em seu ínfimo lar, porém aconchegante, quis acender a luz, que não se manifestou. Ajustou então, o olhar à escuridão e qual não foi a sua surpresa ao perceber que o teto da sua sweet home havia despencado corroído por cupins. Inseto ou animal, ou sei lá que classificação dar a este vil personagem, muito comum nesta cidade.
Imagino o seu desespero, desânimo e tristeza ao ver todos os seus pertences em meio ao pó e pedras, quebrados, rasgados e perdidos para sempre. Imagino também o choro desesperado diante de tal catástrofe, e o que uma fumante podia fazer aquela hora, se não sentar-se ao meio fio e fumar, tragar o mundo bestialógico de injustiças? Eu faria o mesmo.
Mas nem tudo estava perdido, pois a Ira num ímpeto de bondade ofereceu-lhe guarida em sua modesta casa, a única condição era agüentar a Ira falando pelos cotovelos. Sem saída, aceitou o convite e lá foi a Luciene de mochila e cuia (a única que sobrou) em cima do seu salto plataforma, aboletar-se na casa da amiga.
Deus não tem culpa se levaram o carro da Lisely, se a carteira da Dina e as tintas da Rita sumiram, se levaram todos os toca-fitas da Lisely (de novo?), se chove na cama da Emily, se a Edla escreve de ponta cabeça, se a Let’s continua fazendo e não pagando promessas, se o teto do quarto da Ira também desabou e se todo mundo abona no mesmo dia.
Por isso concluo: Isso só pode ser coisa da Zuleide!

1/12/2006

8 - Sofia

Acho que já te contei que o dia que você nasceu foi inesquecível!
Tudo começou às 7 da manhã, quando você deu o sinal que queria sair da minha barriga, era a primeira contração, como dizem os médicos, que com o passar das horas foram aumentando e eu, que no início gemia às 4 da tarde urrava de dor. Até que às 18:08 h você veio ao mundo e senti o alívio i-nes-que-cí-vel!. E pensei:

- Pronto saiu. E agora que faço com isso?

O tempo passou, você foi crescendo e meus cabelos brancos também. Não preciso dizer o quanto você é importante na minha vida, quando grito: Sofia de Almeida Sampaio Ribeiroooo!!!, você sabe que só estou pedindo o seu carinho, as suas fofas mãos em meus cabelos e seus beijinhos. Lembra quando te ensinei a mexer no Orkut? E agora é você quem me ensina. E quando você me disse que estava precisando fazer novas amizades e eu perguntei se os 600 amigos do mensager e os 300 que tens no Orkut não bastavam? E respondeste que não. Morro de inveja deste seu dom de fazer amizades.

O que seria de mim se não tivesse quer lavar a louça que deixas na pia, arrumar a pilha de livros da sua escrivaninha, juntar todos os tênis espalhados pela casa, implorar que corte um pouco os cabelos, pedir a licença para usar o computador, ouvir todos os dias os discos do Rebelde e fazer promessas a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nossa Senhora, São Longuinho e ao Santo Expedito que você passe de ano?

Aquela menina bochechudinha, sardentinha de olhos azuis, que batia o pé pedindo leite e pano mudou. Agora você é uma adolescente bochechudinha, sardentinha de olhos azuis que põe as mãos na cintura, bate o pé, e pede nuggets com coca-cola.


E aí me pergunto:

- E agora que faço com ela?

É difícil ser mãe, mas com você é divertido ser mãe. Começou com o médico que te trouxe ao mundo, o seu apelido de Faustão, já dá para imaginar como foi engraçado... A gente ri e dança, briga e faz as pazes, xinga e pede perdão, vamos ao cinema, exposições, feiras das vilas, você é a minha companheira, meu chaveirinho. E aí você pergunta:

- O que faço com essa mãe?

Agora, neste momento que estão lendo esta carta, você deve estar encolhida na cadeira, chorando e pensando:

- Ai que ridículo! Que mico! Tipo assim, minha mãe, falaaa sééérioo, meu. Nada haver. Isso é bizarro é tosco, aí meu Deus!

Mas fazer o quê? Esse é o meu jeito de te amar.

Te amo. Beijos e beijocas da sua crazy mamy

9 - Quando a Let´s resolveu estudar

A Let´s é uma bibliotecária que não faz o tipo engajada na profissão, lê textos da área de Biblioteconomia só quando é preciso, quer dizer, raramente. Como profissional, executa as rotinas necessárias burocráticamente.
E foi depois de vinte anos de sua formatura, que desconfiou que era preciso atualizar-se na profissão, hoje chamada de Ciência da Informação! Bonito nome não?
Entre tantas disciplinas, escolheu uma de nome bem grande : Produção e recepção de informações documentárias no mundo contemporâneo, ministrada por uma professora pequenininha. Mas como tamanho não é documento, chegou à conclusão que tamanho de conhecimento é inversamente proporcional aos centímetros de altura de qualquer pessoa.
As aulas começaram e logo de cara teve que ler um texto sobre metadados, metainformação, Html, xml e formatos de banco de dados. Seus neurônios começaram então, a despertar preguiçosamente, mas era urgente!
A Let´s passou a fazer caminhadas para ver se oxigenava e arejava o cérebro, o tico até que tentou funcionar, mas o teco se fez de morto e como o tico e o teco andam juntos, não surtiu efeito.
Veio em seguida mais dois textos e a professora pediu uma resenha dos três textos. Aí ela já começa a se descabelar: traduzir-entender-resumir-escrever uma resenha numa tacada só. Negligenciou os afazeres da casa, as roupas sujas transbordaram no cesto, esqueceu do mamão da filha, dia sim dia não, comeu pizza ou pão. Mas Deus há de iluminá-la. Pediu a São Longuinho para encontrar as palavras certas e nada, mas tinha que entregar a resenha e escreveu uma coisa pastosa e sem graça. Desculpou-se a si mesma considerando que seus tico-e-tecos ainda estão se espreguiçando de um longo sono de vinte anos.
Na terceira aula a grande mestra distribui os seminários. A Let’s toda empolgada escolhe o primeiro, teria dois feriadões para ler 120 páginas em inglês, pensou: a língua pode ser um obstáculo, mas nada como um bom dicionário. O que não imaginava era o conteúdo daquele negócio.
No primeiro feriadão descabelou-se com a resenha, no segundo jurou que leria tudo, que ilusão brother! Viajou para a cidade onde seus pais moram, toda equipada de textos, dicionários, cadernos, rascunhos, canetas, réguas, marcadores de texto, só não levou o notebook, porque não tem mesmo.
Chegando lá pediu ajuda ao pai, que sabe muito bem a lingua inglesa. Ele leu dois parágrafos e perguntou: “Para que você está lendo isso? “ Explicou que era para atualizar-se na profissão e aos novos paradigmas da ciência. Falou difícil para impressionar e ele soltou um huumm.. leu mais um pouco:
- Puxa, que coisa complicada, mas pra que isto? Resolveu explicar o que era thesauro, mas pelo menos isso a Let´s sabia.
Diante da constatação que teria que se virar sozinha, meteu a cara no texto. Mas a sua mãe começou a contar as suas dores da osteoporose. A filha atenciosa tentou faze-la ver que precisava estudar, mas a progenitora respondeu: “Você veio aqui para cuidar de mim e não para estudar”.
- Putz mãe, você está com o pé quase na cova e eu ainda tenho mais quarenta anos pra sobreviver, preciso estudar!!! Não adiantou e teve que preparar o almoço.
Mais tarde, recebeu a visita do sobrinho que morou nos Estados Unidos por um ano. Correu para mostrar o texto e pedir a tradução da palavra aboutness, que não tinha entendido e estava em todos os parágrafos das cen-to-e-vin-te-pá-gi-nas. “
- Tia ness é a substantivação da palavra.
-?!
- Pra que você está lendo isso, tia?
Sem comentários....
A esta altura, o dia da apresentação estava chegando. Revoluções cerebrais iniciam um turbilhão, os neurônios tentam recuperar informações no bakground do Id, o Ego desconfia que aí tem coisa, os avós do tico e teco começam a dar sinais de vida, as conexões ainda estão mal feitas, curtos-circuitos relevantes explodem, o tico sacode o teco, a Let´s joga os cabelos pra lá e pra cá para ver se o cérebro pega no tranco, engata a primeira, mas a bateria ainda está fraca e o recal é zero.
Num ato de loucura, expulsa a filha do computador para formatar as idéias e organizar o seu sistema de pensamento. Passa a noite digitando e escreve uma massa amorfa desconexa. Lê, não gosta, pensa em milhões de hipóteses para falar no dia seguinte. Pensa: vai dar certo, vai tudo correr bem só tenho que falar do aboutness, do indexador inconsistente que entendo muito bem, do usuário orientado, ainda que eu continue desorientada, da relevância, da informação, dos dados, da recuperação, dos sistemas. Ufa! Respira fundo e vai dormir.
No dia seguinte constada que não tem leite e nem mamãozinho para o café da manhã.
- Filha, hoje só tem pão, esqueci de comprar comida.
- Tá bom mãe, mas o micro é meu, hoje a noite, né?
Chega a maldita hora do seminário e a Let´s vai lá pra frente, na mão o seu roteiro e o coração em disparada. Tenta explicar o maldito aboutness e percebe que todo mundo já sabe, tenta mudar de assunto e vê na feição da platéia alguns desinteressados e em outros, olhares como querendo dizer: “você não está falando nenhuma novidade, mas apoiamos, vamos lá Let’s o seminário vai dar certo”
A voz falha, a mão treme, se perde. O tico cai duro o teco congela, o cérebro congestiona, como São Paulo na segunda-feira de pânico e a Let´s joga a toalha. Sai de cena, cai o pano, cai a ficha, cai o tico e o desgraçado do teco, que nem levantou, continua se fazendo de morto.
E desde então, a professora a lembra que precisa se esforçar, tem que ler, escrever e teorizar em cima da teoria dos metadados dos sistemas de informação, para recuperar a informação ao usuário orientado pelas bibliotecárias desorientadas e inconsistentes, as time goes by, em formatos xml, html, marc, Dublin Core, that no one can denay.
Well, it´s still the same old story, este sistema to be retrieval or not to be retrieval, that´s the question!

21.05.2006.
Música acidental: As time goes by

10 - Paramentada de aparelho

Cena: Eu de boca aberta, óculos de grau, em frente ao espelho do banheiro, passando fio dental en-tre-ca-da-fer-ri-nho-do-den-te.
- Puxa, meus dentes nunca ficaram tão limpos!
Primeiro escova com a escova dura, depois passa fio dental, com uma agulha de plástico.
- Difícil é achar o buraco da agulha....Hããã, foi.
Depois do fio, usa-se uma escova macia, depois aquela de tufo e por fim bochecho com anti-bactericida bucal.
- Como arde essa coisa!!!
- Arre égua! Ufa, acabou, preciso descansar.

Preciso de toda esta parafernália só porque agora, depois dos quarenta, tascaram-me um aparelho nos dentes, para tapar um buraco de um dente extraído. Risco na minha folhinha cada dia passado, como o dentista prevê dois anos e já se passaram 25 dias, portanto só faltam 705 dias para tirar este maldito aparelho.

Esta triste estória começou quando o dentista, muito atencioso e simpático explicou tintin por tintin como consertaria o buraco da minha arcada dentária e que por isso, teria que usar o aparelho por dois anos. Apesar de não conseguir imaginar como seriam os próximos 730 dias da minha vida, achei divertido, como toda criança que quer colocar aparelho. Fiquei animada com a possibilidade da minha fisionomia mudar. Você algum dia pensou mudar as suas marcas de expressão de lugar com um simples aparelho? Nem eu.
Mas quando contei para as minhas amigas a novidade, comecei a desconfiar que a coisa não seria tão divertida assim. A primeira a me animar disse: é sempre assim, o dentista fala dois anos e você fica seis.
A segunda avisou: não use o transparente, pois é arriscado principalmente quando você comer uma beterraba.
A terceira: reserve meia hora de sua vida a cada escovada. Fiz as contas: quatro vezes por dia: duas horas.
Outras opiniões: O bom que emagrece. Geralmente optamos por não comer só de lembrar que temos que escovar os dentes.
Nos primeiros dias tudo dói, aí quando você se acostuma, o dentista vai e crau, aperta e tudo volta a doer.

Voltei no dia combinado, não muito animada, mas aceitando o meu destino cruel. Em quarenta minutos o profissional cascou-me os ferrinhos. Fechei os lábios e já comecei a sentir o incomodo e saí do consultório matutando: Ah! Elas exageraram, não está doendo nada....
Contudo, ao chegar em casa com a barriga roncando, mirei o pãozinho francês e dei-lhe uma bela mordida. Dei não, tentei, pois foi aí que vi as estrelas brilharem na parede da cozinha e pude humildemente aceitar os avisos dos colegas.
- Arre! Não é que elas têm razão! Isso dói! Meu Deus agora faltam 729 dias e 22 horas para tirar essa coisa!!!!

Passado o susto dos primeiros quinze dias, adotei algumas táticas do programa Fome Zero: muito sorvete, Toddynho no lugar do pão de queijo-e-café; purê em vez de batatas fritas; pão quadrado no lugar do querido francês (esta é a pior parte!). Pipoca, só em casa. Prato ideal: arroz com carne moída, nada dói e a pasta desce pela glote na boa.

Outro dia arrisquei comer alface cortada em tirinhas, tive que chupar como tivesse comendo macarrão e por não conseguir triturar os alimentos, aquela coisa verde grudou na garganta e não descia. Tossi, engasguei, bebi água, muita água e aí foi. Ufa. Não como mais folhas verdes.
Mas há o lado bom: emagrecemos e os dentes ficam limpos: quando come, sai correndo para escovar os dentes; se estiver com preguiça de fazer o ritual dentário, simplesmente, não come e passa fome.
Por outro lado, quem tem filho pré-adolescente, como eu, ainda corre o risco de escutar a máxima: Mãe, adulto de aparelho é ri-dí-cu-lo!
Ao vigésimo-quinto dia aparelhada, já sinto minhas calças caírem, estou fechando a boca, a limpeza está jóia, melhor que nos meus últimos 46 anos, mas tenho o retorno marcado para a próxima semana, quando provavelmente o dentista vai olhar, vai falar:
- Huuummm, tá bom, ta jóia! Vai jogar aquela aguinha que espirra pra todo lado e dar o famoso aperto e eu, pobre de mim....voltarei a me alimentar de todynho, suquinho, leitinho, pãozinho mole, sopinha e outros inhos molinhos, só para não revirar os olhinhos de dor.


20/08/2006

11- Extraindo um cérebro

A minha saga de problemas dentários vem de longe, desde criança freqüento dentistas.Lá pelos idos dos meus lindos 15 anos, obturei umas 20 cáries, duas em ouro! Anos passaram, canais e coroas foram executadas, placa de bruxismo, limpezas, extração do sizo, tudo ou quase tudo foi feito em minhas arcadas.
Mas agora no alto dos meus quarenta e seis anos uma coroa caiu, provisoriamente deu para colar de novo, mas segundo o diagnóstico do meu irmão, dentista, seria necessário fazer um implante, então formou-se um pool de profissionais dentários para discutir o meu caso. Primeiro uma radiografia. Verificaram que não tenho osso para um implante, uma ponte? Também não, pois aquele dente que poderia segurar o falso é pequeno demais. Por que meus dentes haveriam de colaborar e facilitar a nossa vida? Não, tinha que complicar.
Aí pediram uma documentação, sem imaginar o que era, lá fui eu ao laboratório de radiografia. Passei a manhã tirando raio-X, fotografia de todos os anglos do meu rosto, boca aberta, boca fechada, de frente, de lado, boca arreganhada, molde e sei lá mais o quê.
O resultado foi encaminhado diretamente ao pool, que discutiram, analisaram e chegaram a magnífica conclusão: arranca o que sobrou do dente e coloca um aparelho.
Como não tenho medo de dentista, recebi a notícia numa boa. Arranca e coloca aparelho. Tudo parecia que seria uma cirurgia simples: anestesia, um corte na gengiva, o buticão, balançar o dente, afrouxar a raiz, um puxão e pronto, extrairia o dente, ou melhor, o pedaço que sobrou.
Cheguei na hora marcada, às 13:30 horas de uma quarta-feira. Sentei na cadeira, o dentista abaixou o encosto, de modo que fiquei deitada olhando ora o teto, ora as janelas. Uma sala clara e bem iluminada pelas imensas janelas, que mesmo deitada, podia ver o sol brilhar à minha esquerda num mês de julho atípico, fazia calor mas lá dentro o ar era fresco. Eu, paramentada de babador e guardanapo na mão, ele, de luvas cirúrgicas, óculos, preparando os instrumentos na bandeja; verifica a seringa da anestesia, mas percebo que são vários tubinhos, respirei fundo e pensei: vamos lá, coragem é só um dente, tudo acabará logo.
Uma picada ali, outra aqui, mais uma, outra no céu da boca, que dói pra burro. Fecho os olhos e tento pensar em outra coisa e idealizo umas férias em Cancun, que se esvai na primeira tentativa do dentista.
Sinto empurrar o dente para cima e para baixo, pro lado e uma lágrima de dor escorre.
- O quê que é? Vai chorar agora?
- Não, não, pode continuar, não é nada....
Mais um pico de anestesia e sinto a mandíbula indo para a esquerda e o maxilar para a direita, minhas atms reclamam, fico em silêncio, não podia levar mais uma bronca.
- Merda, não podia arrumar um dente mais fácil de tirar?
Não ouso responder, afinal de boca escancarada só podia rezar e rezei, rezei para todos os santos, fiz promessas a São Longuinho, à Nossa Senhora de Aparecida e nada.
O dentista fica de pé e muda de posição, com um instrumento que penso ser, uma chave de fenda, empurra o dente e sinto a costura do encosto da cadeira penetrar em meu cérebro.
- Caracoles! Não vai sair? - reclama o dentista
As horas passam, mais anestesia, sinto o sol queimar as minhas pernas, já devia ser três da tarde e a luta continua, meu irmão. Ele forçando o maldito dente, o maxilar quase caindo, a cabeça prensada na cadeira, tufos de gazes, anestesia, buticão, chave de fenda, chave inglesa, suas mão esmagando as minhas bochechas e? e nada, não queria sair.
Escuto o barulho do famoso motorzinho de dentista.
- Tá partindo para ignorância, pensei e rezei, é claro.

Lembro da dor do parto da minha filha. Dizem que é a pior dor que se pode sentir, mas pelo menos podemos gritar e xingar quem nos deixou naquela situação, inclusive toda a equipe médica que nos assiste, mas num consultório é só você de boca aberta sem poder falar nada e o dentista equipado de todos instrumentos de tortura.
O sol enfraquece, ele xinga mais um pouco, solto um suspiro profundo de cansaço, era uma luta quase vencida por um mísero pedaço de dente. Suplico que martele, mas ele responde que não pode fazer isto.
O crepúsculo, que não era dos deuses, tinge o céu de vermelho. E a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar... já dizia o Raulzito, anuncia o fim da luta às cinco e meia, hora de Brasília:
- Até que enfim! Ruge o dentista. Está aqui o maldito!
Olho para aquele pedaço infame de osso, tão pequeno sem saber se sentia alegria, ódio ou a felicidade de um parto, mas ele era como um filho indesejado, não quis saber dele, não quis guardá-lo como lembrança.
Senti então, os pontos sendo dados rapidamente, nem pedi outra anestesia, pois queria que aquela tortura acabasse logo, assim como ele. Cirurgia finda, voltou a cadeira em posição normal para que o sangue voltasse a circular em meu corpo e eu não desabasse ao levantar.
Dispensada corri para o elevador onde haviam dois homens e uma mulher. Me sentido um extra-terrestre com o rosto inchado, me justifiquei daquela situação:
- Está na cara que estou saindo do dentista, né?
A mulher deu um sorriso...
- E olha que é meu irmão!
- Nooossaaa, imagine se não fosse?
- Pois é, acho que vingou todos seus traumas de infância. É que eu tirei o seu posto de filho caçula quando nasci.
- Deve ser....
Térreo. Saí correndo para o carro e um choro compulsivo e descontrolado veio à tona. Dirigi de volta para casa. Meus pais vieram me receber à porta, pensei que fosse uma calorosa recepção, afinal nunca fazem isto, mas devido o adiantado da hora, quase 7 da noite, meu pai, meu querido e bom velho pai, me pergunta:
- você trouxe o jantar e o pão de amanhã?
Minha mãe equilibrando-se na bengala, só coração de mãe podia responder isso:
- Sampaio..... vá à M....
Agora, estou com aparelho nos dentes, mas isto... será uma outra história...

Letícia 29/07/2006